sexta-feira, 27 de março de 2009

TERRA VERMELHA...

... que, em especial quando chovia e tudo virava "matope", mais nos dava a ideia de terra regada com sangue. Afinal não será mais que uma argamassa quase pronta para revestir qualquer palhota da zona.
Quando cheguei a Nova Freixo, admirei a tez negro-avermelhada de alguns nativos da zona, porque não me passava pela cabeça tratar-se de pó do caminho, aquele pó penetrante, que nos sufocava a pontos de tornar necessário colocar um lenço a proteger a boca e o nariz, para permitir respirar quase de modo conveniente.
Os "putos" da então Vila, já feitos ao ar irrespirável, andavam de "ginga" devidamente protegidos do tal pó fininho, que era inimigo quase tão temível como a FRELIMO. Valiam as mangueiras para dar um pouco de sombra, já que não haviam por ali mangueiras como as dos bombeiros - estes não existiam, claro - para se regar o chão e fazer o pó reduzir-se a insignificante "matope", maleável como as cobras, que também as havia por ali .
Quem ganhava com tudo isto eram os bares do Caldeira, que vendia Laurentina até mais não, do Sobral, do Solar do Pontes Açoreano ou do Raimundo e do Valente, já para não falar dos bares militares, onde era travada a tradicional "guerra" entre a "Laurentina" e a "2-M", pois todos queriam ser os melhores lá da rua. O que interessava era fazer a poeira desaparecer das nossas gargantas... ainda que fosse com água, se a houvesse capaz!
Mesmo assim, com pó, calor, falta de água e tudo o mais que se possa imaginar, os jogos de futebol de salão eram o ex-libris das tardes de Nova Freixo, tal como o era o dia de "São combóio", quando quase toda a Vila se deslocava para a zona da estação, para vêr quem chegava e quem partia, naquele jeitinho tão peculiar dos "Portugas", que gostavam de vêr com olhos de vêr... para não jurar falso, como soe dizer-se.
Há algumas acácias espalhadas pela Vila, mas são poucas para as necessidades, porque a terra está a crescer... e as árvores nem por isso!
Terra vermelha, fininha como farinha, agressiva como um animal feroz que nos atacasse a garganta... mas quantas saudades estão latentes neste desabafo, que não é mais que um lamento pela distância a que se encontra aquela querida terra moçambicana, encostada lá para as bandas do Lago Niassa, protegida pelo Mitucué e pelo Morro do Elefante. Tenho saudades da generosidade daquela terra pintalgada de verde e vermelho ... quase me parecendo estar ela embrulhada na nossa Bandeira, pois quando as mangas começavam a amarelar, havia a ilusão de serem pedaços da esfera armilar do Escudo de Portugal.
Tenho saudades de Nova Freixo... de Cuamba... do pó vermelho irritante... do ar quente, sufocante, que pedia um VAT 69 com muito gelo ou uma "bazooka" da "Laurentina" para limpar o ardor da garganta!

sábado, 21 de março de 2009

NO SANTUÁRIO DA GUERRA...

Uma secção da FRELIMO
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Dizem os conhecedores dos ideias marxistas-leninistas e conforme foi proclamado pelo líder Mao, que "as populações estão para o guerrilheiro como a água para o peixe". Segundo essa mesma doutrina, as chamadas "lutas de libertação nacional" são uma parte integrante do movimento revolucionário mundial, dirigidas às populações para que as consciencializem politicamente. Mais tarde, numa outra fase, devem dedicar-se à constituição de forças revolucionárias, ficando então prontas para passarem à acção violenta.
A morte do missionário holandês Daniel Boorman, da missão de Nangololo, foi o acontecimento que veio marcar o começo da acção violenta em Moçambique. A força mais importante no início da guerra colonial foi a Frelimo, apesar de vários outros pseudo movimentos disputarem a orientação da luta contra os portugueses, acabando por se fundir ou extinguir, como é o caso do Coremo, Unamo, Molimo, Monalimo e do Fumo.
Em 1973 o Samora Machel (da Frelimo) e o Paulo Gumane (do Coremo) vieram anunciar esse ano como um ano ainda mais sangrento. Num panfleto que foi deixado pela Frelimo após um ataque a um aldeamento do Niassa dizia-se: "neste ano as machambas, os rios, os caminhos e as estradas estarão minadas".
Durante a Operação Corvo III tinha sido feito prisioneiro o chefe distrital de reconhecimento (Sereco) e foi abatido o comandante da Base do Unango, que transportava uma pasta com documentos. No interrogatório, as declarações do prisioneiro permitiram referenciar a localização da Base Gungunhana e o estudo dos documentos veio revelar estar marcada pelo chefe provincial, Sebastião Mabote, uma reunião dos chefes militares da Frelimo no Niassa, na base, para discutirem as acções que se propunham realizar nas regiões de Cantina Duas e Vila Cabral.
Devido ao valor excepcional desta informação, à possibilidade de surpreender uma reunião de líderes da Frelimo e ainda o facto de se dispor de um prisioneiro importante, foi decidido realizar uma operação no maior segredo, empenhando efectivos reduzidos, mas escolhidos.
Assim, pelas sete horas da manhã, descolaram do Aeródromo de Manobra nº. 61, em Vila Cabral, dois aviões, um DO-27 e um T-6, estando este armado com bombas e rocketes, para irem proceder ao bombardeamento do objectivo.
Os homens dos Comandos, que se haviem posicionado a cerca de 1.ooom da base inimiga, num dispositivo de assalto em meia-lua, avançaram após o lançamento das primeiras bombas, atacando os guerrilheiros que procuravam escapar ao bombardeamento.
Com a situação devidamente controlada, procedeu-se a uma busca no interior da base inimiga, onde foi encontrado bastante material, pois como resultado desta operação, foram mortos 22 guerrilheiros e capturadas três metralhadoras anti-aéreas, dois RPG-2 e 30 espingardas de vários tipos e origens, podendo daí inferir-se do grande desenvolvimento que o inimigo já lograra alcançar no Niassa.
Tal como acontecia em Cabo Delgado... e um pouco por toda a imensidão dos matos de Moçambique, havia dificuldade de comunicações, o acidentado do terreno, e a fraca presença de colonos, vinham facilitar bastante a acção da FRELIMO no Niassa, pois esta alargara a sua acção para o Sul, na direcção de Meponda e Mandimba, de onde procurariam atingir o Malawi, percebendo-se a clara intenção de descerem até Mecanhelas e, deste modo, alcançarem a Zambézia e daí se poderem ligar a Tete.
Por outro lado, a FRELIMO fes chegar a sua acção, em simultâneo, ao Leste, em direcção a Marrupa, para daí alcançarem Cabo Delgado.
Um grupo inimigo, que se estimava em cerca de 30 elementos fortemente armados com armas automáticas, morteiros ligeiros e Bazooka, logrou aproximar-se da povoação de Munhehere (antiga circunscrição de Mandimba, Posto de Belém). Atacaram-na de forma impiedosa, mantendo-a debaixo de fogo durante cerca de hora e meia. Incendiaram algumas palhotas e raptaram 45 aldeãos, na sua maioria mulheres e crianças, tendo ainda roubado duas espingardas Mauser.
Após uma tenaz perseguição que foi encetada pelas nossas forças, o grupo inimigo resolveu bater em retirada, atravessando o rio Lugenda, na direcção de Maúa.
Como é fácil inferir-se, a região onde estava implantado o Aeródromo Base nº. 6 não era uma zona de turismo, sendo antes uma região bastante interessante para se viver atento aos sinais que poderiam surgir no horizonte, ou não fosse um santuário da FRELIMO com bastante impacto.
Pela nossa parte, mostrámos estar firmes e vigilantes... e eles que viessem!

domingo, 1 de março de 2009

ESCUTISMO EM NOVA FREIXO

Mal cheguei à Vila de Nova Freixo, a primeira coisa que me apercebi foi não terem os jovens locais estruturas onde pudessem colocar o seu imaginário a render, soltar a sua criatividade ou viver em ambiente de partilha solidária, de modo fraterno, as fases da sua afirmação na sociedade em que estavam inseridos e de que seriam lídimos continuadores num futuro mais ou menos próximo.
De forma instintiva, logo me lembrei de que o Escutismo poderia ser uma das soluções para resolver tal falha, porque me lembrei do que representou para o Negage, quando estive em Angola, o ter sido criado um Agrupamento de Escutas do CNE, pois deu aos jovens angolanos uma possibilidade de viver segundo o espírito de Lord Baden-Powell, o Fundador do Escutismo.
Fui apresentar cumprimentos ao Pároco de Nova Freixo, Revmº. Pe. João Monteiro da Felícia, Missionário da Consolata que ali estava a exercer o seu múnus sacerdotal. A certa altura, entre um café e dois biscoitos, diz-me que está pensar fundar um Agrupamento de Escuteiros, só não o tendo feito ainda porque não tem ninguém para o ajudar na tarefa. Dei uma gargalhada e disse-lhe aquilo que tinha pensado, quando me dirigia para a residência paroquial: havia falta de uma actividade capaz de entusiasmar os jovens locais e essa poderia ser o Escutismo.
Como era Escuteiro do CNE há cerca de 25 anos, com agrado ajudaria na tarefa a que prentendia deitar mãos.
Agradeceu-me... e desde logo procurei encontrar os colaboradores necessários para formar a Equipa Dirigente. No Aeródromo Base 6 convidei o 1º. Cabo Domingues Henriques, Caminheiro do Clã do Agrupamento dos Olivais - Lisboa, para chefiar o Grupo. O Pe. João poderia ser o Assistente ou o Chefe do Agrupamento,tal como o Pe. Herculano, Reitor da Missão da Consolata em Nova Freixo. Convidou-se também uma jovem Catequista local, a Maria Goretti Vasconcelos, para chefiar a Alcateia, o 2º. Sargento Alves, para chefiar o Clã e o Furriel (Ex) Pedro Ribeiro para Secretário do Agrupamento.
Realizou-se então uma conferência na Sala de Espectáculos do Desportivo, onde foi explicado aos pais aquilo que se pretendia implementar na Vila, que finalidades se pretendiam atingir, o que era o Escutismo e quais os regulamentos a que haveria de se obedecer.
Foram abertas as inscrições... e o êxito foi total! A afluência levou a que num ápice se constituam um Grupo Júnior com 4 Patrulhas de 7 elementos, um Grupo Sénior de 2 Patrulhas de 6 elementos cada e uma Alcateia com 5 Bandos de 6 elementos.
O pior foi ter-se uma comunidade Ismaelita muito grande e os jovens islâmicos, lógicamente, também pretenderem ser Escuteiros, acontecendo o mesmo com as raparigas católicas, para as quais não conseguia encontrar uma dirigente capaz de as poder integrar.
Pediu-se então à Junta Central que desse parecer sobre o que se deveria fazer... e a Chefia Nacional aconselhou que as raparigas fossem integradas em Patrulhas mistas, adoptando o método da co-educação, sistema que estava a ser implementado no CNE na Metrópole.
Quanto aos jovens da Comunidade Islâmica, que se constituissem Patrulhas normalmente... e se adaptasse a Lei, os Princípios e a Promessa à realidade da religião que professavam! Apenas era necessário estar-se atento e conseguir que a Comunidade acompanhasse os jovens no que respeita à religião.
Num próximo trabalho continuarei a explanar aquilo que foi a aventura do Escutismo em terras de Nova Freixo. E há muito para dizer, acreditem! Poderá afirmar-se que os Militares fizeram um trabalho altamente meritório no campo da educação da juventude. Presumo que possa ser essa uma das razões para que o Escutismo esteja a sobreviver na África de expressão Portuguesa, felizmente!