domingo, 26 de abril de 2009

25 de Abri... uma reflexão !

O 25 de Abril de 1974 é uma data de que quem se encontrava em missão de soberania na defesa da Pátria portuguesa em Moçambique jamais se esquecerá.
Não que não desejassem ver terminada a pungente saudade dos entes queridos, que sentiam nos seus corações; não que não quizessem ver findar uma guerra em que iam perecendo alguns dos melhores filhos da Pátria; não que não pretendessem estender a mão ao outrora inimigo e partilhar com ele o generoso fruto do seu trabalho, cooperando para que fossem herdeiros orgulhosos da nova Nação em embrião, pois era esse o caminho que desde há muito se adivinhava para as antigas possessões portuguesas do Ultramar.
O 25 de Abril veio escancarar as portas das independências... mas não cuidou de saber acautelar aquilo que iria ser o dia 26, com a onda de violência sobre o "odioso colonialista branco e os seus colaboradores"... que vieram a ter que prestar contas por... não terem culpa de nada daquilo que foram os anos da guerra entre as Forças Armadas Portuguesas e a FRELIMO, pois estes pretendiam lutar pela sua auto-determinação e independência, enquanto aqueles apenas e tão só cumpriam o seu dever de Militares que protegiam as populações contra a sanha terrorista, que não olhava a meios para atingir os fins: "É NECESSÁRIO MATAR? ENTÃO MATAMOS!".
Nos meses seguintes ao 25 de Abril, a FRELIMO recrudesceu os seus ataques às populações e às Forças Armadas, matando apenas para poderem provar que tinham a força das armas do seu lado, mesmo atacando aeronaves em voo humanitário de transporte de doentes civis.
É assim que morre o Major Fernando José Castelo, cujo "héli" foi abatido por alturas da assinatura desse memorando que ficou conhecido nos anais da história porAcordos de Lusakae foi protagonizado por Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Alberto Chipande, Óscar Monteiro, Bonifácio Gruveta, Sebastião Mabote, Jacinto Veloso - Piloto da Força Aérea Portuguesa que desertou para as fileiras da FRELIMO -, Mariano Matsinha, Xavier Salila, Joaquim Munhepe, Mateus Malichocho, João Phelembe, Joaquim de Carvalho, José Mosane e Graça Simbine, após um frente a frente acontecido naState Houseem Lusaka, na Zambia, e uma delegação portuguesa liderada por Mário Soares - Ministro dos Negócios Estrangeiros, da qual também faziam parte Ernesto Augusto Melo Antunes - Ministro sem Pasta, António de Almeida Santos - Ministro da Coordenação Interterritorial, Victor Manuel Trigueiros Crespo - conselheiro de Estado, Antero Sobral - Secretário do Trabalho e Segurança Social do Governo Provisório de Moçambique, Nuno Alexandre Lousada - tenente-coronel de infantaria, Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa - capitão-tenente da Armada, Luís António de Moura Casanova Ferreira - major de infantaria.
Foi no dia o1 de Setembro de 1974 que a FRELIMO tomou o quartel do Exército sediado em Nangade, numa tomada de posição que pretenderia mostrar haver uma disposição para continuar a luta.
A revolução de 25 de Abril de 1974 ficou directamente ligada à guerra colonial, não só na fase inicial do Movimento dos Capitães, mas principalmente porque se supõe ter-se então tomado consciência de que apenas uma solução política poderia pôr termo a essa guerra e essa solução política teria de passar, forçosamente, por uma mudança de regime.
Pena foi o não terem aquilatado sobre quais as consequências de uma liberdade plena, que viria a mostrar-se potenciadora de alguns acontecimentos que, ainda hoje, continuam como ferida na alma de quem os viveu.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

35 ANOS DEPOIS...

REGAM-SE OS CRAVOS DE ABRIL...
... ARREBITARÃO?
... tanto que havia para dizer! Os cravos cedo começaram a murchar, porque a Revolução rápidamente fugiu ao esquema árduamente preparado pelos chamados Capitães de Abril... talvez porque alguns não eram Capitães, outros não teriam sido promovidos naquela data... e haveria outros que nem sequer mereceriam o posto, tal a indignidade mostrada durante aquilo que se convencionou chamar de PREC.
Encontrava-me eu em Nampula - Moçambique - quando se deu o golpe que derrubou o Governo de Marcelo Caetano. A maioria das pessoas apenas se terá apercebido bastante tarde, porque não seriam muitos os que, numa terra em que o mata-bicho se tomava cerca das 06 horas da manhã, teriam acesso às notícias provenientes de Lisboa.
Soube do golpe porque a área envolvente ao Comando Militar de Nampula, à Capela Militar, Unidades sediadas na cidade e à Cantina da Manutenção Militar, haviam sido vedadas e os Militares de serviço só me deixaram passar poprque estava fardado e apenas ia à Manutençao buscar alguns géneros necessários para o quotidiano.
Perguntei a um Oficial o que se estaria a passar... e ele disse-me que tinha havido um golpe de estado em Portugal e que o Governo fôra derrubado e mandado para o exílio.
Acontece que pouco tempo antes tinha havido um pronunciamento feito a partir do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, pelo que logo me apercebi que as mudanças iriam ser muitas e as Guerras em África iriam ter ali o seu epílogo.
Era só esperar-se para vêr... mas a ansiedade começou a espelhar-se nos rostos da comunidade civil, co9meçou a dar-se uma explosão de partidos e movimentos, uns com uma expressão, outros com outra, pois enquanto uma parte da população era favorável à continuidade de Portugal em África, outros achavam já ser tarde que tal facto viesse a acontecer.
No mato, algumas Unidades do Exército, não sei se por determinação dos Comandos se de "motu próprio" dos Militares dessas Unidades, resolvem abrir-se ao convívio "fraterno" com a FRELIMO - precisamente o inimigo de ontem - e chegam ao ponto de entregar as armas e os aqurtelamentos, dando assim azo ao riso e à chacota do próprio Samora Machel, que nem queria acreditar ser possível tal traição aos sagrados deveres a que o Juramento de Bandeira os obrigava. No primeiro comício no Estádio da Machava, Samora disse precisamente jamais lhe haver passado pela cabeça tal desatino e sinal de cobardia. É que, entretanto, alguns outros, mais conscientes de que era preciso manter uma certa dignidade, iam sendo sacrificados em holocausto pela Pátria, como foi o caso do Capitão Piloto Aviador Fernando José Castelo, cujo helicóptero foi abatido pela FRELIMO, que continuava a lutar, aproveitando as fragilidades provocadas pela "desmobilização" daqueles de quem Samora falava.
Trinta e cinco anos após a revolução... é tempo de escutar as consciências e dizer até que ponto foi cumprido o chamado programa do Movimento das Forças Armadas. Porque democracia com fome e sem trabalho, sem segurança, sem saúde... será tudo menos democracia! Há mais liberdade ou liberdade demasiada? Portugal mudou muito, é certo, mas a corrupção, o caciquismo, o novo-riquismo das classes políticas, que são eternas beneficiárias dos lugares de posição cimeiras nas grandes empresas ou instituições do País... que cada vez se confronta mais com a certeza de que o 25 de Abril foi bonito - "foi bonita a festa, pá, estou contente..." - mas o dia seguinte veio abrir chagas difíceis de cicratizar, deixou a sociedade doente... e o número de pobres assustadoramente aumentada! VALEU A PENA?

domingo, 12 de abril de 2009

RESSUSCITADOS COM CRISTO

Ainda tenho presente a primeira Páscoa que passei no AB6, ou melhor dizendo, em Nova Freixo! Foi uma Páscoa não muito diferente daquelas a que estava habituado viver em Leiria ou em Angola, pois Cristo e a Sua Paixão e Morte na Cruz são referência indelével do cristão em qualquer parte do mundo, são o sinete que marca aqueles que foram Baptizados em Cristo.
No entanto, há tradições que se verificam um pouco por todo o lado, até naquilo que se come do dia da Ressurreição. E Nova Freixo não fugia muito àquilo que era a tradição pascal, porque o que interessava, acima de tudo, era viver esta data em comunhão com a Igreja Universal sem descurar os costumes locais, tais como a alimentação, os cânticos religiosos e todas as manifestações que tornavam mais rica a celebração pascal.
Recordo haver um problema grave a resolver no que respeitava à proibição de se comer carne nos dias de jejum e abstinência, segundo determinava a Santa Igreja. Sabemos que o peixe é hoje bastante caro, agora calcule-se como o seria numa terra do interior, sem mar ou rios onde pescar. O peixe mais próximo vinha do Lago Niassa... quando vinha! Havia a possibilidade do bacalhau... mas onde o comprar? Havia marisco, mas era pior comer-se camarão, sapateira ou outros mariscos ou peixes como a corvina, a pescada ou similares, como alguns cristãos faziam, mandando vir de Nampula.
Os missionários diziam então que ninguém ficava impuro por comer carne. “Ai senhor padre, mas sempre foi assim. Os nossos pais era assim que faziam” - lamentavam-se algumas devotas - “O que posso então comer?”. "Olhe... coma comidas simples, pobres. Nada de comidas requintadas!". “Basta isso?!” - perguntavam. "É a Páscoa uma ocasião em que devemos procurar ser bons!".
Parece que ainda me soam aos ouvidos os cânticos em língua Macúa, entoados pelos alunos do Seminário de Nova Freixo, acompanhados pelos batuques, que pareciam dizer:
"CRISTO RESSUSCITOU, ALELUIA! RESSUSCITOU E VENCEU A MORTE, PARA REDENÇÃO DO HOMEM DE TODOS OS TEMPOS, EM TODOS OS LUGARES!".