segunda-feira, 29 de junho de 2009

NOVA FREIXO... de ontem

Hangar do Aeródromo Base nº. 6
*
Estava em Nova Freixo quando ouvi relatar aquilo que foi «A farsa do 2.º Congresso da Frelimo», um evento que terá ocorrido em 1968, que seria nada mais nada menos que uma reunião das cúpulas políticas da Frelimo algures no Niassa.
Disseram então as vozes "aurorizadas" dos inimigos de Portugal que “a Força Aérea Portuguesa agiu massivamente com bombardeamentos de saturação na zona do congresso, com mais de vinte bombardeiros a actuar em rotação, forçando assim os congressistas a debandar.”
Tal afirmação, marcadamente fantasista, reflectia o desconhecimento profundo sobre questões relacionadas com as Campanhas Militares portuguesas em Moçambique, pede que nos debrucemos sobre ela, porquanto:
a. - Na data em que supostamente se realizou o tal Congresso da Frelimo, os meios aéreos de que dispunha a Força Aérea em Moçambique não correspondiam aos “mais de vinte bombardeiros” a que refere a notícia, supostamente publicada por um "talvez" jornalista pró FRELIMO... e nem sequer havia os própriamente ditos aviões bombardeiros no território.
b. - O então comandante-chefe das Forças Armadas de Moçambique, General Augusto dos Santos, referiu várias vezes não haver em Moçambique meios aéreos ou terrestres capazes de assegurar a mobilidade das forças sob o seu comando, pois “dispunha apenas de dois helicópteros para uso nos dois distritos do Norte de Moçambique” que tinham sido assolados pela subversão, concretamente o Niassa e Cabo Delgado.
c. - Os “bombardeiros” a que possívelmente aludiam, consistiam em dois tipos de aeronave, sendo uma o Harvard T-6, simplesmente um monomotor concebido para instrução. O outro tipo de avião existente no teatro de operações era o PV-2 Harpoon, um bimotor da Lockheed destinado ao combate naval, equipado com radar, que pode transportar bombas ou cargas de profundidade num compartimento situado no interior da fuselagem, oito foguetes sob as asas, com 5 metralhadoras de calibre 12,7 mm instaladas no nariz, duas numa torre dorsal móvel e mais duas móveis numa posição ventral junto da cauda.
O primeiro PV-2 Harpoon chegou a Moçambique em Fevereiro de 1962, operando a partir da Base Aérea 10, na Beira. Em finais de 1965 foram destacados dois PV-2 Harpoon para Vila Cabral, para executarem missões de ataque ao solo e bombardeamento táctico. O número máximo destas aeronaves em Moçambique era de seis, tendo dois sido acidentados no Niassa no ano de 1966, pelo que ficaram reduzidos a quatro.
Os aviões a jacto Fiat G-91 só chegaram a Moçambique nos fins de 1968, ficando baseados no Aeródromo Base nº. 5, em Nacala.
d. - Grande parte das baixas sofridas pelas Forças Armadas Portuguesas deveu-se precisamente à falta de meios aéreos para evacuação de feridos, chegando-se ao ponto de, na ZOT (Zona Operacional Tete) as baixas das tropas portuguesas serem muitas vezes evacuadas através de helicópteros da Força Aérea Rodesiana.
e. - A mobilidade das Forças Armadas Portuguesas, incluindo a da Força Aérea só se alterarou significativamente após a nomeação, em Março de 1970, do General Kaúlza d’Arriaga como Comandante-chefe das Forças Armadas de Moçambique, substituíndo o General Augusto dos Santos.
É a partir daqui que, pela primeira vez, as operações militares passaram a contar com a intervenção de forças helitransportadas, como ficou patente na Operação Nó Górdio, que foi desencadeada em Julho seguinte.
f. - Por tudo isto é mais que claro ser fantasia pura essa de terem sido utilizados "mais de vinte bombardeiros a actuar em rotação” contra os delegados ao tal Congresso da Frelimo realizado antes das alterações realizadas no teatro de operações a que me referi. Quem tal afirmar tem uma noção bastante limitada do que são as acções contra-subversivas, porque de contrário não se faziam afirmações totalmente descabidas.
Mesmo que em 1968 as Forças Armadas Portuguesas dispuzessem dos meios propalados, estes jamais seriam utilizados dessa forma, contra um alvo tão exíguo que não constituía ameaça táctica ao conjunto das forças em campanha, como era o caso da posição das forças da FRELIMO no local de realização do tal Segundo Congresso... que tinha a particularidade do mesma se realizar em zona não muito distante do aquartelamento das Forças Armadas Portuguesa em Olivença.
Uma simples base de guerrilha da Frelimo não justificaria o utilizarem-se tantos bombardeiros e ainda por cima, como diziam os "noticiários da caserna frelimista", “a actuar em rotação”, como se fosse um ataque à boa maneira de Pearl Harbour. Se, em 1968, a Força Aérea Portuguesa tivesse de facto recorrido a uma formação de mais de 20 bombardeiros, actuando em rotação, para atacar os delegados ao Congresso da Frelimo, a cúpula deste movimento, como resultado da intensidade das flagelações e bombardeamentos empregues, teria toda ela, ou pelo menos uma parte significativa, sido aniquilada, e isso, como se sabe, não aconteceu.
Quando for possível escrever-se a verdade sobre as guerras que aconteceram no antigo Ultramar, por investigadores isentis, que não se deixem levar nas cantigas de "escárnio e maldizer" que os actuais escribas vão debitando para o Zé Povo, que tem direito a ser informado com verdade sobre aquilo aquilo que foi a História Portuguesa do século passado, com a perda de um vasto legado que tinha 500 anos de existência e "voou" num ápice, porque alguém assim o pretendeu, não importa agora como... mas nunca vencidos pela sorte das armas!

sábado, 13 de junho de 2009

A RESERVA NATURAL DO NIASSA

- A Reserva do Niassa:
Esta Reserva possui uma área de 15 mil quilômetros quadrados e está localizada na Província do Niassa, nas margens do rio Rovuma. A Reserva parcial do Niassa foi famosa devido aos enormes efetivos de elefantes que possuía, considerada uma reminiscência do Jardim de Éden Africano...
Hábitat de uma grande diversidade de espécies de fauna tropical numa paisagem equilibrada, bravia... é um verdadeiro santuário de caça, que inclui muitas espécies clássicas tais como o leão, o leopardo, o elefante, o búfalo, e subespécies raras como o gnu-do-niassa (considerado endémico e por tal motivo sujeito a proteção), a zebra-boehms, o antílope-negro-africano e o cão-selvagem-africano – que está em perigo de extinção.
Também aqui existem girafas, podendo encontrar-se a subespécie girafa-do-Cabo!
O Governo Provincial, em cumprimento da Política Nacional, transformou toda esta herança natural e primitiva num destino eco-turístico, preservando todo um riquíssimo património natural completamente intacto, permitindo, deste modo, que o turismo se desenvolva de uma maneira sustentável, de um modo que permite ao homem, à fauna e à flora coabitarem em perfeita harmonia.
É uma das maiores reservas naturais do mundo – pensa-se que será a maior de Moçambique e talvez de toda a África Austral. A reserva é o hábitat da fauna e flora ainda por desvendar.
Nas extensas planícies da região do Miombo, situadas entre rios que se cruzam, erguem-se os majestosos Inselbergs. Alguns estão isolados como ilhas e outros próximos uns dos outros.
Ao longo dos rios vagueiam grandes manadas de caça, como faziam no tempo dos comerciantes de marfim...
Hoje esta reserva é o hábitat de uma crescente população de elefantes calculada em cerca de 12.000 cabeças. Esta abundância de animais permite a caça de troféus em zonas habitadas por búfalos na orla do parque.

Na reserva são permitidas apenas as máquinas fotográficas. É superiormente dirigida sob um rígido programa de conservação que inclui bastas iniciativas de desenvolvimento para as comunidades dentro do parque, ao mesmo tempo que vai promovendo o ecoturismo da vida selvagem.

A Reserva do Niassa é a última selva natural no mundo, de acordo com as primeiras experiências de Livingstone, quando abriu caminho através da selva com a sua caravana de carregadores e tendas, lutando contra búfalos e leões...
Essa nova rota está localizada numa área onde toda a superfície se encontra coberta de vegetação virgem e apresenta os menores índices populacionais de Moçambique.
Considerando a destruição massiva de animais nos anos da guerra civil, porque nos tempos coloniais apenas o comércio do marfim punha em risco os elefantes... ou então os safaris desenfreados que se faziam para Inglês pagar...ou Rodesiano...ou Sul-Africano ou fossem lá quem fossem, desde que tivessem dinheiro para gastar na aventura, a recuperação das Reservas naturais de Moçambique é um facto que deve encher de alegria todos aqueles que amam esta terra.

sábado, 6 de junho de 2009

Recordando...

Nova Freixo - a actual Cuamba (ou Kwamba?)
*
- No dia em que cheguei a Nova Freixo, viajando de Nampula a bordo de um NORD superiormente pilotado pelo Capitão Fernando Eiró Gomes e a sua excelente tripulação, fui logo transportado para a Vila, onde me foi atribuída uma "flat" no Prédio Moreno, alugado à Força Aérea para efeitos de alojamento dos Oficiais e Sargentos colocados no Aeródromo Base nº. 6.
- Mesmo que houvesse ali poeira de criar bicho, mercê da falta de alcatrão nos arruamentos, as acácias davam uma certa beleza ao conjunto habitacional... que até nem era falho de alguma harmonia, estéticamente falando. Frente ao prédio via-se um "projecto de jardim", onde abundavam as acácias em detrimento dos canteiros de flores e da relva... mas tudo bem! Nos ajardinados das vivendas havia algumas flores, que podiam dar aquele colorido diversificado que todos gostamos de presenciar.
- Mesmo no meio do jardim, estava implantado o edifício dos Correios, moderno, bem projectado, com pintura a cheirar a novo! A dois passos dali, o Café-Restaurante Caldeira, seguido de um série de moradias onde se viam crianças brincando. No fundo da rua, a Messe de Sargentos do Exército... que não tinha Sala de Refeições mas tinha um bar, o que não era nada mau. Mesmo em frente havia o estabelecimento do Raimundo, com comércio geral, café e... barbearia, imagine-se!
- Do outro lado do jardim via-se a Igreja de São Miguel de Nova Freixo, com a residência paroquial. E ao lado esquerdo de quem olhava a Igreja, encontrava-se a Residência das Irmãs da Consolata, o Colégio de São Teotónio e o Seminário da Missão. Do lado direito ficava o Bairro Ferroviário. Havia ainda o comércio geral com casa de comidas e bar pertencente ao Pontes, a quepomposamente se chamava o "Solar do Açoreano", porque era onde, aos fins de semana, se podia ter o subido prazer de ouvir cantar o fado.
- Havia também o Café-Cervejaria e Bar Sobral, que tinha já alguma categoria, dado o local onde estava implantado, que era pertença dos Sobral, tal como um modelar estabelecimento onde se podiam também comprar alguns artigos de muito boa qualidade. Esta família Sobral era das famílias mais conhecidas e respeitadas na Vila. O requinte e a arte fotográfica estavam entregues aos cuidados da Família Saraiva, tal como os artigos de livraria e papelaria... a par de algumas outras actividades que iam sendo desenvolvidas paralelamente com as que lhes serviam de referância.
- A Administração era um edifício de traça muito semelhante àquelas que eram predominantes naquelas terras que, num passado não muito distante, eram terras bem portuguesas.
- Mas muitas outras recordações haverá para dissecar... quando houver inspiração para tanto. Mas acredito que ela virá e muita coisa se dirá!