terça-feira, 28 de julho de 2009

De Bréscia e mártir em Moçambique

Nos meus anos de África, talvez tenham sido os momentos mais tristes que por lá passei aqueles em que me vi privado de Amigos de verdade. O Padre Guerrino Prandelli era um desses Amigos e foi um dos Homens que me emocionou pelo modo desprendido como colocava a sua relação com Deus e com os Homens.
"Estou bastante feliz por ser sacerdote - escreveria ele pouco antes da chegada ao fim da sua vida - Gosto de trabalhar arduamente nestes tempos difíceis. Numa época em que o padre está fora de moda, para um jovem como eu se tornar "público", necessita fazer parte de um "desafio global", mais profundo: o do amor ". Guerrino Prandelli nasceu em Brescia, no ano de 1943. Tinha a idade de 12 anos quando, em resposta ao apelo da sua religião, entrou para a casa do 'Apostólica Baveno' dos Missionários da Consolata. Era uma criança dotada de um temperamento vivo, quase se podendo dizer "provocante", assaz forte e por vezes também rude.
O Padre Guerrino Prandelli lutou contra tudo... e a todos exortou para que permanecessem fiéis ao apelo da missão que se coloca a cada um no dia-a-dia das suas vidas. Assim que foi ordenado sacerdote, em 1969, foi-lhe proposto que trabalhasse um pouco em Itália, mas o jovem Sacerdote não se coibiu de dizer, no imediato: "Ou vão enviar-me para as missões a mim, ou terão de mandar o marido de uma qualquer senhora, porque de uma maneira ou de outra, como Padre ou como leigo, eu irei para as Missões."
Não restou outra alternativa e o Padre Guerrino Pandrelli foi então enviado para Moçambique, havendo chegado ao Niassa no ano de 1970 . Continuou lá a fazer o seu trabalho na tradução para as diversas línguas locais, ajudando os seus irmãos e em deslocações constantes de uma Missão para outra. Viria a ser numa dessas viagens que iria encontrar a morte.
Como Missionário da Consolata que era, foi nomeado vice-pároco de Nova Esperança. Ali trabalhou quase como um louco, parecendo estar a pressagiar que iria ter um tempo bastante curto para o cumprimento da missão a que Deus o destinara. Compreendeu de imediato quais as exigências e as necessidades daquela população, especialmente dos mais pobres, como era o caso dos leprosos. Para estes mandou construír várias casas, para que eles tivessem uma casa mais higiénica e saudável, visando proporcionar-lhes uma vida mais digna.
Era um Homem dotado do dom das línguas: estava apenas à dois anos no Niassa, mas o Padre Guerrino já traduzira, para a linguagem indígena local, alguns textos da Santa Missa, facilitando deste modo a participação do povo. Ele andava bastante feliz, apesar das dificuldades que lhe eram impostas pelas medidas anti-guerrilha. "Nova Esperança é a Missão mais isoladas do Niassa - escreveu -. Isto deve-se à guerrilha. Ultimamente nas nossas estradas tem sido colocado um grande número de minas, pelo que viajar se tornou extremamente perigoso. Nas aldeias ou na Missão, não há grande perigo, mas nós não podemos ficar ali parados, pois ninguém vem até nós, por várias razões. Precisamos prover-nos de alimentos e medicamentos, pois as pessoas não têm sal, açúcar, óleo, sabão, petróleo...."
O perigo veio ao encontro dele numa mina que foi colocada no seu caminho, quando seguia de Nova Freixo para Belém. Em meados de outubro de 1972, ele e os seus irmãos da Consolata foram chamados para se reunirem na Missão do Mitucué, nos subúrbios de Nova Freixo (hoje Cuamba), para tratarem da elaboração de alguns trabalhos missionários. Assim que terminou os trabalhos, sem esperar pelas conclusões e cerimónia de encerramento do Encontro, o Padre Guerrino Prandelli manifestou vontade de voltar imediatamente para a sua Missão.
Ainda foi aconselhado pelos outros Missionários, que lhe diziam para aguardar por um momento que pudesse ser mais seguro, mas o Padre Guerrino respondeu-lhes que não podia deixar os seus leprosos sem comida, pois os pobres não podem esperar esperar por momentos mais seguros, disse.
E lá partiu, sózinho, no seu Land Rover. Depois de haver celebrado a Santa Missa na Igreja de São Miguel, em Nova Freixo, seguiu caminho. Mal sabia ele que tinha celebrado a sua última Missa, porque, a cerca de 20 kilómetros de Belém, uma roda da viatura faz explodir uma mina anti-carro, que se encontrava dissimulada na estrada.
Houve uma violenta explosão, destruiu a viatura por completo e causou a morte súbita deste extraordinário Missionário, que ainda um mês antes havia escrito para um colega, estudante: "Acredita que se vive mais num ano de Missão, que em cinquenta anos em Itália, vividos na mediocridade".
O Padre Guerrino Prandelli morreu no dia 17 de Ourubro de 1972. Tinha apenas 29 anos e encontrava-se numa Missão... que apenas lhe gastou três: um desafio global "para tal mediocridade".
Anos antes ele havia confidenciado a um amigo , por causa de sua vocação missionária: "Eu quero ser como Cristo no meio dos povos do mundo, pregar as mesmas coisas com Ele anunciou, testemunhar o exemplo de uma vida pobre e humilde".
Os restos mortais do Padre Guerrino foram transladados para a sua amada Itália e repousam no cemitério de Vuangano, depois de concluida a sua curta mas rica existência terrena.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Combóio NOVA FREIXO... VILA CABRAL

Combóio para Vila Cabral

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Quem chega às terras que formaram a antiga circunscrição do Amaramba, naquele imenso território que é o Niassa, toma-se conhecimento das muitas histórias que se contam relacionadas com os combóios e automotoras que circulavam a partir de Nacala e iam até às terras de Vila Cabral, ao Catur, a Metangula...
O Caminho de Ferro de Nacala ao Niassa, que "cortava" a Província de Este a Oeste, atingiu o Catur em Dezembro de 1962, depois percorridos mais de 800 quilómetros através dos distritos de Moçambique e do Niassa.
As regiões até então remotas de Vila Cabral e de Maniamba abriram-se para novas perspectivas, pois o combóio era uma pequena franja de progresso que chegava às terras do Lago. Completava-se então a maior linha alguma vez construída em território nacional. Catur passou a ser, desde Janeiro de 1963, o terminal da maior linha férrea de Moçambique. Em 14 de julho desse ano, com a presença do então governador-Geral, Almirante Sarmento Rodrigues, que por seu despacho de 10 de Abril de 1963 promovera o concurso para a construção do troço Catur/ Vila Cabral, procedeu-se à inauguração da nova linha Nova Freixo/ Catur.
Em Dezembro de 1969 completou-se o Caminho de Ferro de Nacala, com a inauguração do troço CATUR - VILA CABRAL, que ligava Nacala à região do Lago Niassa, num percurso de cerca de 800km, atravessando todo o país, por conseguinte, de oriente para ocidente.
Um ramal, concluído em 1970, a partir de NOVA FREIXO e passando por ENTRE-LAGOS (na fronteira), ligou esta importante linha ao sistema ferroviário do Malávi (antes Niassalândia), ficando assim este País com duas ligações directas para o mar, através de Moçambique
Mas a linha de caminho de ferro era bastante apetecível para a FRELIMO, porque lhe permitia cometer actos de sabotagem constante, minando diversos pontos de passagem das composições. Alguns Militares dão testemunho daquilo que passaram na protecção da linha:
"(...) vivi cenas de morte horrorosas. Uma delas aconteceu na madrugada de 5 de Março de 70, pelas 6 da manhã, a 3 ou 4 kms do nosso quartel em Catur. Uma zorra do caminho-de-ferro, com um atrelado carregado de homens que andavam a trabalhar na linha e a respectiva milícia que os protegia, foi alvo de uma emboscada pelos guerrilheiros da Frelimo. Quando chegámos ao local, vi a coisa mais horrorosa que se poderia imaginar: havia mortos por todo o lado totalmente decompostos e feridos em estado muito grave.(...)" - Relato feito por José Brandão - B. C. 2895 - "Passados 2 anos, o Furriel Silva, da Companhia de Caçadores 4242 patrulhava aquela linha férrea .Registaram-se, então, alguns descarrilamentos provocados por sabotagem do inimigo, não se tendo registado acidentes pessoais.
É de louvar a eficácia, no patrulhamento e protecção da linha férrea, nomeadamente no percurso Belém - Catur, promovida pelo grupo de combate comandado pelo Furriel Silva".
Para que conste, aqui fica registado o facto, com todo o mérito.
Quando fui até Nacala, viajando na automotora que, vinda de Nova Freixo, passou por Nampula, sofri dois percalços, sem consequências, é certo, mas que me fizeram começar a ter uma certa atenção com as histórias que se contavam sobre os combóios ou automotoras dos Caminhos de Ferro de Moçambique.
Talvez na longínqua Metrópole que era este jardim à beira mar plantado a que hou por bem chamar-se Portugal, ninguém ousasse pensar na possibilidade de um furo na roda da carruagem da automotora... mas aconteceu assistir a este "fenómeno", não uma mas sim duas vezes.
Estava no bar da composição quando esta parou inopinadamente, quase me lançando sobre o cavalheiro que pacatamente bebia uma "Laurentina", encostado ao balcão do bar. Foi então que o barista, que era um dos revisores da automotora, disse que estava tudo bem, pois tinha havido apenas... um furo numa das rodas e era coisa para uns momentos a reparação da mesma roda.
Fui espreitar e vi realmente estar a ser colocada uma travessa metálica com uma espécie de um macaco hidráulico, que levantou um pouco a roda furada e permitiu a sua substituição por outra em boas condições. Foi o meu baptismo de coisas inolvidáveis, como o foi o estilhaçar de um vidro provocado por uma galinha do mato que, tendo levantado voo "sem olhar o trânsito", se foi espatifar contra a frente da automotora. Seria um petisco para o condutor da composição... não se desse o facto de o ter ferido sériamente nos olhos.
Mas... Moçambique tem tanto para contar!!! Acreditem que isto não é nada!