quinta-feira, 16 de julho de 2009

Combóio NOVA FREIXO... VILA CABRAL

Combóio para Vila Cabral

*
Quem chega às terras que formaram a antiga circunscrição do Amaramba, naquele imenso território que é o Niassa, toma-se conhecimento das muitas histórias que se contam relacionadas com os combóios e automotoras que circulavam a partir de Nacala e iam até às terras de Vila Cabral, ao Catur, a Metangula...
O Caminho de Ferro de Nacala ao Niassa, que "cortava" a Província de Este a Oeste, atingiu o Catur em Dezembro de 1962, depois percorridos mais de 800 quilómetros através dos distritos de Moçambique e do Niassa.
As regiões até então remotas de Vila Cabral e de Maniamba abriram-se para novas perspectivas, pois o combóio era uma pequena franja de progresso que chegava às terras do Lago. Completava-se então a maior linha alguma vez construída em território nacional. Catur passou a ser, desde Janeiro de 1963, o terminal da maior linha férrea de Moçambique. Em 14 de julho desse ano, com a presença do então governador-Geral, Almirante Sarmento Rodrigues, que por seu despacho de 10 de Abril de 1963 promovera o concurso para a construção do troço Catur/ Vila Cabral, procedeu-se à inauguração da nova linha Nova Freixo/ Catur.
Em Dezembro de 1969 completou-se o Caminho de Ferro de Nacala, com a inauguração do troço CATUR - VILA CABRAL, que ligava Nacala à região do Lago Niassa, num percurso de cerca de 800km, atravessando todo o país, por conseguinte, de oriente para ocidente.
Um ramal, concluído em 1970, a partir de NOVA FREIXO e passando por ENTRE-LAGOS (na fronteira), ligou esta importante linha ao sistema ferroviário do Malávi (antes Niassalândia), ficando assim este País com duas ligações directas para o mar, através de Moçambique
Mas a linha de caminho de ferro era bastante apetecível para a FRELIMO, porque lhe permitia cometer actos de sabotagem constante, minando diversos pontos de passagem das composições. Alguns Militares dão testemunho daquilo que passaram na protecção da linha:
"(...) vivi cenas de morte horrorosas. Uma delas aconteceu na madrugada de 5 de Março de 70, pelas 6 da manhã, a 3 ou 4 kms do nosso quartel em Catur. Uma zorra do caminho-de-ferro, com um atrelado carregado de homens que andavam a trabalhar na linha e a respectiva milícia que os protegia, foi alvo de uma emboscada pelos guerrilheiros da Frelimo. Quando chegámos ao local, vi a coisa mais horrorosa que se poderia imaginar: havia mortos por todo o lado totalmente decompostos e feridos em estado muito grave.(...)" - Relato feito por José Brandão - B. C. 2895 - "Passados 2 anos, o Furriel Silva, da Companhia de Caçadores 4242 patrulhava aquela linha férrea .Registaram-se, então, alguns descarrilamentos provocados por sabotagem do inimigo, não se tendo registado acidentes pessoais.
É de louvar a eficácia, no patrulhamento e protecção da linha férrea, nomeadamente no percurso Belém - Catur, promovida pelo grupo de combate comandado pelo Furriel Silva".
Para que conste, aqui fica registado o facto, com todo o mérito.
Quando fui até Nacala, viajando na automotora que, vinda de Nova Freixo, passou por Nampula, sofri dois percalços, sem consequências, é certo, mas que me fizeram começar a ter uma certa atenção com as histórias que se contavam sobre os combóios ou automotoras dos Caminhos de Ferro de Moçambique.
Talvez na longínqua Metrópole que era este jardim à beira mar plantado a que hou por bem chamar-se Portugal, ninguém ousasse pensar na possibilidade de um furo na roda da carruagem da automotora... mas aconteceu assistir a este "fenómeno", não uma mas sim duas vezes.
Estava no bar da composição quando esta parou inopinadamente, quase me lançando sobre o cavalheiro que pacatamente bebia uma "Laurentina", encostado ao balcão do bar. Foi então que o barista, que era um dos revisores da automotora, disse que estava tudo bem, pois tinha havido apenas... um furo numa das rodas e era coisa para uns momentos a reparação da mesma roda.
Fui espreitar e vi realmente estar a ser colocada uma travessa metálica com uma espécie de um macaco hidráulico, que levantou um pouco a roda furada e permitiu a sua substituição por outra em boas condições. Foi o meu baptismo de coisas inolvidáveis, como o foi o estilhaçar de um vidro provocado por uma galinha do mato que, tendo levantado voo "sem olhar o trânsito", se foi espatifar contra a frente da automotora. Seria um petisco para o condutor da composição... não se desse o facto de o ter ferido sériamente nos olhos.
Mas... Moçambique tem tanto para contar!!! Acreditem que isto não é nada!

24 comentários:

  1. eu tambem andei por estas bandas mas em 65/67 na CCS do B.Cç. 19, entretanto procuro fotos da automotora com pneus, fico grato por tal.
    Jorge Silva
    jorge.silva2020@gmail.com

    ResponderEliminar
  2. tambem eu estive no CATUR 1969-1970 ccs baç 2895.
    so uma curiosidade fala na ligaçao do comboio CATUR/ VILA CABRAL no final de 1969 eu fiz parte de um pelotao que fez segurança a uma ponte existente nesse percurso e nao me lembro se foi CATUR-VILA CABRAL ou se ainda ficou um troço para mais tarde.
    Nos poucos apontamentos que tenho faço referencia CATUR NOVA GUARDA.que essa NOVA GUARDA nao aparece nas buscas no google.
    Pergunto foi CATUR- VILA CABRAL OU CATUR NOVA GUARDA se que existui ou se so nos meus apontamentos. Um Grande ABRAÇO . COnsulte se possivel www.comboiodocatur-vilacabral.bogsot.co
    quimarques

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também eu estive no Catur em 1972/74 na Companhia de Caçadores de Vila Cabral que pertencia ao B.cac 20.Patrulhei a linha de caminho de ferro entre o rio luxímua e o Catur e dei protecção aos comboios de passageiros entre o rio Luxímua e Vila Cabral e os de mercadorias entre o rio Luxímua e o Catur. O comboio, para entrarmos, parava na ponte do rio onde tinhamos um destacamento, no entanto, em dias de chuva era necessário muitas vezes vir atrás tomar balanço para conseguir subir a inclinação que havia a seguir à ponte. Recordações!...

      Eliminar
    2. Há, há e quando estava sem força no vapor o "Grifo", motorista do comboio metia uma barra de sabão na caldeira...

      Eliminar
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  4. Caro Quimarques:
    só agora me é possivel responder eu andei na dita automotora entre 65/67 de Nova Freixo a Nampula por questões de serviço mas já altura ela ia até ao Catur.
    ABRAÇOS,
    Jorge Silva

    ResponderEliminar
  5. Obrigado camarada JORGE.
    A sua resposta e cheia de boa vontade,mas nao chega para avivar a minha memoria os anos passaram !!
    A minha duvida e se o troço CATUR VILA CABRAL foi inaugurado de uma so vez ou se como penso em duas etapas sendo que a primeira delas tenha sido CATUR NOVA GUARDA se e que seta localidade existia e a segunda NOVA GUARDA VILA CABRAL.UM GRANDE ABRAÇO e ate sempre Quimarques

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Quimarques, não sei se ainda vou a tempo, mas como não vejo por aqui qualquer resposta conclusiva à sua dúvida, aqui lhe deixo. A localidade de Nova Guarda existia e ficava entre Catur e Vila Cabral. Se a linha férrea foi construída em duas tranches (Catur-Nova Guarda e Nova Guarda-Vila Cabral), não lhe sei responder. No meu tempo de Permanência no Niassa (Junho1973/ Dezembro 1974) esse problema não se punha.
      Já agora aproveito para lhe dizer que, por alturas de Fevereiro de 1974, estando no Catur, vindo de Massangulo, me preparava para uma bela mariscada no comboio (como sabe este ficava retido no Catur quando chegava depois das 16H00 e só no dia seguinte seguia para Vila Cabral) recebi uma mensagem urgente do Comando do Sector para seguir imediatamente para Vila Cabral. Assim, cerca das 22h00, lá segui eu, mais dois Milícias do Caminho de Ferro, enfiados numa "draisine" toda em metal, com uma ranhura na chapa, à frente, para o condutor poder ver a linha e mais duas nas paredes do lado, tipo seteiras.
      Como imagina, aquela viagem, cómoda, segura, às escuras, sujeita a tudo o que pudesse acontecer na linha, foi um prazer até Vila Cabral. Felizmente tudo acabou bem. O que seguiu depois e que justificou tanta urgência, é outra história que fica para um dia...
      Um abraço amigo
      Salvador Silva

      Eliminar
    2. estive em Massangulo nessa altura fui da 1ª CCAV 8420. Então a sua era a minha ??? ou passou por Massangulo vindo de outro lado abraço amigo

      Eliminar
  6. Caro Quimarques:
    No meu tempo ( 65/67 ) só havia ligação até Catru o resto tudo se passou depois, como tal lamento não poder dar ajuda.
    ABRAÇOS
    Jorge Silva

    ResponderEliminar
  7. Caro quimmarques,como sabes somos do mesmo Bat.e se a memória não me atraiçoa o troço catur vila cabral foi inaugurado duma só vêz,mas... posso estar errado.
    Espartano,Ferreira da Silva.

    ResponderEliminar
  8. Sou estudante da Universidade do Minho, Braga. Ando a procura de pessoas que tenha vivido em Cuamba e Nipepe entre 1967-1970. Ando a procuro dos rastos do meu pai: João dos Santos Baptista. Possivelmente alguns seguidores deste blog poderão ajudar-me. meu endereço é baptistazesantos@yahoo.com.br

    ResponderEliminar
  9. tambem eu nos principios dos anos 60 andei nessas automotoras. era militar e estive sediado durante algum tewmpo no lumbo. pertencia ao bce 260. quem se lembra? ha fotos na internet dessas automotoras . a alcunha era a velha miquelina.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. tambem eu era do bce 260 que esteve nu lumbo.Era o alferes seco. Lembra-se? Quem é você? pode ligar-me via internet para o meu e-mail . Gostaria muito de ter noticias suas.
      o meu e-mail é antonio.seco@sapo.pt

      Eliminar
  10. Também eu andei por aí. Estive em Metarica 18 meses, 1966/68 e Mandimba 6 Meses. Ultimos meses de 1968.Viajei nos comboios e automotoras. No meu tempo a linha ainda não chegava a Vila Cabral(Lichinga).Numa escolta que fiz a esta Cidade, verifiquei a construção da Linha em Nova Guarda. Fur.Mil. A. Braz

    ResponderEliminar
  11. Tambem estive em Nova Freixo em 66/67 antes tinha estado em Maúa conheci muito bem a dita automotora de rodas de borracha,eu era da PSP mais tarde fui para um aldeamento que ficava na estrada que ia para a Cantina Dias ou seja era o aldeamento que ficava no cruzamento Moponda-cantina Dias

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. amigo quem é você? fomos ambos do bce 260.Mande-me um e-mail.obrigado

      Eliminar
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Eliminar
  12. Almoçar fora!...
    Sim, em dias de comboio de passageiros, íamos almoçar ao restaurante do comboio quando este parava no Catur. Era a única hipótese que tinhamos de variar o local de refeição! Estive colocado a cumprir serviço militar de 1972 a 1974 na Companhia de Caçadores de Vila Cabral no Catur.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu,alferes, no catur de 71 a 73, pergunto nani quem es tu? telefona-me. para 964980785. fiquei curioso e saudoso.

      Eliminar
  13. M.Perdigão
    Também estive em Nova Freixo em1973 e 1974,pertenci ao PAD 9778 e fiz várias vezes a viagem de comboio e automotora Nova Freixo Nampula e vice-versa.Um abraço para os meus companheiros.

    ResponderEliminar
  14. À procura de "coisas" acerca de Cuamba/Nova Freixo vim aqui ter...
    Gostei do que já vi, mas vou levar ainda algum tempo mais para ver tudo.
    Aqui > http://novomoc.blogspot.pt/ poderá acompanhar-me "do mar a Cuamba".
    Cordiais saudações

    ResponderEliminar
  15. Estive em Malapisia, Vila Cabral, e fiz vária vezes o trajeto Vila Cabral-Nova Freixo, em 74/75. Os descarrilamentos eram frequentes.

    ResponderEliminar
  16. Eu estive em cuamba * nova freixo onde fiz a 3 classe em 1974

    ResponderEliminar