sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Histórias de guerra em Moçambique

Uma mina... anti-pessoal... anti-vida!
O SOL VAI ALTO NA PICADA DE OMAR

"Está frio. Não é raro em Mueda. O cacimbo matinal e a farda suja que vesti depois do banho criam-me um mal-estar geral. Mas estranhamente o frio não me incomoda, talvez porque a água, que também estava suja, apenas tenha servido para substituir o suor nocturno por uma substância desconhecida de cor esverdeada. Devo ter uma fina camada de lama a proteger-me a pele.Ao longe os soldados em redor das Berliets parecem insectos atarefados em volta de um objectivo difícil de identificar.
Acendo um "Caravela", colho da ponta da língua um fiapo de tabaco com o dedo anelar, numa delicadeza ritual e reparo que os insectos se alinham, à voz de comando, formando grupos rectangulares e quando conseguem uma forma razoavelmente regular, dispersam novamente. Há qualquer coisa de despropositadamente infantil na ordem-unida.
Ainda não é bem dia, a luz húmida da manhã mal rompe o cacimbo que torna as formas esborratadas, como se estivéssemos numa sauna. Saí para a rua há minutos e estou todo encharcado. Finalmente junto-me aos insectos e transformo-me num insecto também.O condutor benze-se antes de subir para a Berliet ao mesmo tempo que se certifica que os sacos de areia estão nos sítios certos. Não custa nada tomarem-se as medidas de segurança todas quando se vai para a picada de Omar, embora aquele sinal-da-cruz, maquinal e apressado, me pareça um esforço insuficiente para atrair o olhar de Deus. Será que a guerra não é motivo suficiente para Deus ver este grupo de soldados a ir ao encontro das emboscadas e das minas e precisa de um sinal breve de aviso ao mesmo tempo que se ajeita a blindagem dos sacos de areia?
As viaturas partem sem pressa, ronceiras, e à saída de Mueda abrandam à medida que passam á frente de uma árvore onde alguém pendurou uma tábua que diz: "Reduz o perigo das minas para metade – vai ao pé-coxinho!", depois arrancam de novo, acelerando um pouco de mais, a denunciar irritação, como se o humor negro, típico em Mueda, hoje parecesse um tanto estúpido.Levanto-me para tirar um diapositivo ao nascer-do-sol.
Os raios de luz parecem projectores, riscando o cacimbo, como se por detrás daquelas árvores tivesse havido um arraial a noite inteira…Agora já o sol vai alto e caminhamos sobre a picada entre dois castigos: o sol por cima e o pó por baixo. Dois castigos que nos fazem esquecer um pouco a omnipresente ameaça das minas.
Sigo o desenho nítido das pegadas dos soldados que me precedem, que faço os possíveis por decalcar, sobrepondo-lhes as minhas próprias pegadas, no pó tão fino como talco. Faz lembrar-me o Largo do Sobreirinho, na minha aldeia, onde no Verão, o chão fica coberto de um pó como este. Eu sou do Largo do Sobreirinho como outros são de uma cidade. A pouco e pouco a memória daquela planura térrea sobrepõe-se à visão da picada. O que vejo agora é o largo da minha terra e as tardes de futebol da minha infância. O pó era um afago para os pés, que nos entrava pelas sandálias até aos tornozelos e nos pulverizava a roupa com um tom suavemente ocre a que a minha mãe chamava sujidade. O Largo do Sobreirinho, onde terei que reaprender a caminhar para não acabar a perseguir os transeuntes, decalcando-lhes as pegadas, com medo de perder as pernas.
Não sei o que aconteceu! Algo me atirou ao chão. Não ouvi nada, mas os ouvidos doem-me como se apenas o eco de um estampido sinistramente familiar permanecesse na minha cabeça. Na guerra, quando aconteceu algo e não se sabe o que aconteceu, aconteceu uma desgraça. Não ouvi nada, porque o impacto da explosão, que senti no corpo todo, deve ter chegado primeiro que o som. À minha frente um corpo contorce-se no chão numa posição anormal. Coberto de pó e com a parte inferior desfeita, como que dissolvida no próprio chão ou como se um animal selvagem a tivesse abocanhado. Não há sangue, o pó projectado pela explosão deve ter obturado os vasos sanguíneos e o que resta dos membros faz lembrar as tiras da pele de uma banana semidescascada. A MG 42 tombada a seu lado diz-me que é o Lemos. Não grita nem geme, o corpo convulsiona apenas. Os olhos ampliados pelo pânico, fitando-nos em busca duma realidade que desminta o pesadelo; em busca da razão que desminta a insanidade. E nós, repentinamente estupidificados pela impotência, olhamo-lo com o pânico dele reflectido no nosso olhar, mudos e parados como se tivéssemos congelado. Eu acabo por auxiliar maquinalmente o enfermeiro à medida que ele me diz: − "Chegue-me aquilo". − "Pegue aqui". − "Segure ali". O sol vai alto na picada de Omar. Não há razão nenhuma para Deus não ver o que se passa. Onde está Deus quando acontecem desgraças? Onde está Deus, o omnipresente deus, hoje que o cabo Lemos pisou uma mina? Não está de certeza aqui na picada de Omar."
História verídica de autor anónimo

Sem comentários:

Enviar um comentário