quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ANO VELHO... ANO NOVO...

Mais um ano se vai passar para trazer ao Povo Moçambicano a esperança de que venha a consolidar-se, em definitivo, o objectivo a que se propunha a FRELIMO quando iniciou a luta armada contra o regime então vigente em Portugal. Depois, quando terçou armas contra a RENAMO, já são contas de outro rosário, porque aqui se tratou de luta fratricida, de irmãos contra irmãos, procurando um lado opor-se ao descambar do regime para a esfera comunista e o outro lutando por implementar tal doutrina, segundo as escolhas de alguém que se achou acima do Povo soberano... que paga agora as consequências de tão funesta decisão.
Mesmo não comungando dos ideais propostos para a República de Moçambique, sei que o seu Povo precisa de PAZ, TRABALHO, SOLIDARIEDADE, SAÚDE e tudo o mais que seja possível conceder-lhes na prespectiva de os tornar realmente um Povo que dá graças a Deus porque lhes deu um pedaço de céu como Pátria, uma capacidade empreendedora capaz de fazer Moçambique ir em frente como Pátria de que orgulham, fraterna e exemplo para os paízes vizinhos!
Moçambique precisa que se acredite nela, pois tem muito para dar a quem se proponha arregaçar as mangas e deitar mãos ao trabalho sem medo!
Tem "maningue" possibilidades de ser aquela terra "chunguila" sempre nos encantou... mas precisa de justiça social, de igualdade de oportunidades para todos, porque já bastou aquilo que sofreram nas guerras! Não sejam uns a encher os bolsos e os outros a definhar.
Neste Novo Ano que está a chegar, espera-se que o Governo não continue a marginalizar quem não tiver cartão de militante da FRELIMO, e que não continue a atirar para os portugueses todo opróbio, o odioso daquilo que os novos senhores fizeram e não deviam ter feito, sendo já tempo de assumirem que cometeram erros... até na expulsão de tudo quanto cheirasse a branco, motivando a debandada de alguns quadros e de muita mão de obra qualificada, que acabaram por fazer falta para reerguer a economia moçambicana.
Com os erros aprende-se... e creio que os actuais governantes irão fazer ter valido a pena lutar pela soberania de um Povo que merece ser feliz!
BOM ANO NOVO, MOÇAMBICANOS!!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NATAL...TEMPO DE RECONCILIAÇÃO...

QUE ESTE NATAL POSSA SER DE "PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE", NÃO ESQUECENDO QUE DEVEMOS DAR A DEUS TODA A HONRA E TODA A GLÓRIA, PORQUE É ELE O PRINCÍPIO E FIM DE TODAS AS COISAS!
CRISTO NASCEU PARA NÓS... PRETOS, BRANCOS OU AMARELOS, POIS DEUS NÃO TEM OUTRA MANEIRA DE SER PRESENÇA EM NÓS QUE NÃO SEJA ATRAVÉS DO SEU AMOR A TODOS AQUELES QUE CRIOU!
VAMOS TODOS DAR AS MÃOS E CANTAR A GLÓRIA DO SALVADOR DO MUNDO, QUE CONTINUA A VIR AO CORAÇÃO DAQUELES QUE SABEM AMAR COMO JESUS AMOU!
SÓ ASSIM O NOVO ANO FARÁ SENTIDO, POIS QUEREMOS UM 2011 MAIS JUSTO E MAIS FELIZ!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MOÇAMBIQUE... TRAFICA ÓRGÃOS?

De vez em quando somos confrontados com o horror das crianças que são traficadas para serem transformadas em doadores de órgãos para ricos... que, quero acreditar, muitas das vezes não saberão a proveniência desses órgão, mas há sempre quem saiba, no meio deles, especialmente aqueles que pagam autênticas fortunas para terem um coração, um rim, uns pulmões...
As autoridades judiciais sabem que o tráfico se faz, mesmo que o Governo teime em esconder a realidade de tais crimes, perpetrados das mais diversas formas, umas vezes para a prática da feitiçaria, outras para transplantes... e também para a prática do canibalismo, digamos os nomes das coisas.
Ora o Governo também não estará convencido de que nada acontece, a fazer fé na legislação que a Unidade Anti-Corrupção vinha propondo desde há alguns anos, através de relatórios minuciosamente elaborados em que ia pedindo as ajudas tornadas pertinentes para o combate a tal flagelo. Trabalho debalde, porquanto aquela Unidade Anti-Corrupção foi substituída pelo Gabinete Central de Combate à corrupção... mas nem mais uma vírgula se acrescentou ao que estava relatado sobre esta matéria.
"AS PESSOAS TENTAM, DESESPERADAMENTE, SAÍR DA POBREZA E DAS FRUSTRAÇÕES E POBRES CONDIÇÕES DE VIDA A ELAS ASSOCIADAS. ESTÃO, PORTANTO, SUSCEPTÍVEIS ÀS OFERTAS DOS FEITICEIROS PARA MELHORAREM A SAÚDE E/OU AS CONDIÇÕES FINANCEIRAS." - lê-se no relatório dos Direitos Humanos de Moçambique.
Numa pesquisa feita pela mesma Liga dos Direitos Humanos de Moçambique, conclui-se que a prática da extração dos órgãos humanos está mais associada a práticas tradicionais prejudiciais, particularmente a feitiçaria e não ao transplante, dizendo ainda que a conservação e o método de transporte de órgãos e partes do corpo humano, depois da sua extracção, foi constatado não ser efectuado pelos supostos traficantes para fins de transplantes, sendo o transporte desses órgãos e partes de corpos levados em sacos, embrulhados em folhas de árvores, escondidos dentro de caixas com carne de caça, nas bagageiras de carros ou até dentro de panelas. Não há os cuidados de que os laboratórios fazem uso quando os órgãos são para transplante.
A legislação em uso leva a que na maior parte dos casos, quando as pessoas são apanhadas com órgãos humanos, não é passível de punição, porque não há testes de ADN passíveis de determinar a origem do órgão - dizem as autoridades policiais. A morte de pessoas para extração de órgãios destinados à feitiçaria é uma prática regular, tanto em Moçambique como na África do Sul. Partes de corpos humanos são traficadas frequentemente e os clientes são feiticeiros, porque há nestes dois Países uma forte crença que algumas partes do corpo humano são poderosos meios de tornar os medicamentos tradicionais fortes e eficazes.
No Chimoio - Mussorize, estão encarcerados cinco homens, um deles curandeiro, indiciados por terem morto quatro mulheres para lhes extraírem a língua, o esófago, o clitóris e o útero, para serem usados para fins obscuros. As vítimas tinham de ser mulheres solteiras e que nas últimas 48 horas não tivessem tido qualquer relação sexual.
Custa a acreditar que o Presidente permita que o Povo Moçambicano, para além da pobreza extrema em que se vê lançado, tenha ainda sobre a cabeça o expectro da morte para fins escusos... só para encher os bolsos a alguém! Será que não o informam destas coisas ou a distração tem um propósito?
Têm chegado notícias tremendamente sinistras sobre outros tráficos... desta vez fala-se de drogas e do envolvimento do Brasil e dos manda-chuva de Moçambique.
O Lula da Silva terá corrompido o Armando Guebuza? Estejam atentos às cenas dos próximos capítulos.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

BANDIDO... de colarinho branco

Sérgio Vieira - irmão do celebrado "Conde" Castelo Branco -
em sessão de lançamento "do seu livro" de memórias
Numa análise a tudo o que tem sido o caminhar de Moçambique nestes anos de Independência, não deixo de me sentir incomodado pela forma como alguma FRELIMO tem contribuído para tornar difícil a cicatrização das feridas provocadas por anos de guerra, primeiro contra as Forças Armadas Portuguesas e logo após com o eclodir da guerras civil... que alguém parece querer perpetuar.
Entre os cultores da linha ditatorial da FRELIMO, que foram desde sempre identificados e todos os Moçambicanos sabem bem quem são, não posso deixar de citar o inefável Coronel Sérgio Vieira, sinistro filho de Tete, nascido em 1941 e antigo Ministro da Segurança de Samora Moisés Machel, além de outros cargos que exerceu com a competência de um déspota, que sempre foi.
Quando Samora Machel governava, Sérgio Vieira prendeu Joaquim Chissano, que foi levado para a Ilha de Xefina, onde foi interrogado por Lagos Lídimo.
Mas não foi apenas esta prisão a ser maquinada pelo Coronel Vieira, uma vez que também se lhe devem muitas outras que foram acontecendo... não se podendo recolher os testemunhos das vítimas em virtude de... terem sido fuziladas por ordem do verdugo da FRELIMO.
Dá-se como exemplo o Dr. José Massinga, antigo funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Ministro J. Chissano, que esteve preso no período ditatorial acontecido em Moçambique, concretamente em 1981, às ordens da segurança da Frelimo, tendo sido acusado de ter relações com a CIA, sendo sumáriamente detido no seu gabinete de trabalho e enviado para a BO (Brigada de Operações), situada na Machava. Ali funcionava o Serviço Nacional de Segurança Popular, o antigo SNASP que hoje se conhece por SISE, e foi Massinga submetido a tortura, chamboiqueado e eletrocutado por Sérgio Vieira em pessoa. Que honra!
Deixou o Dr. José Massinga incapacitado, sem possibilidades de dar um passo que fosse, porque tinha as nádegas todas doridas. O Dr. Massinga foi ali contemplado com sistemáticos espancamentos , diários, deixando-o todo esfarrapado e a sangrar abundantemente. Sérgio Vieira aproximava-se dele e entretinha-se a puxar-lhe pelas orelhas, troçando, humilhando, enxovalhando ...
Para Chissano encontrou Sérgio Vieira uma acusação supimpa: Alegou que ele colaborava com os imperialistas. Logo que regressou do estrangeiro, Chissano foi preso, sendo presente ao Presidente, juntamente com o acusador Vieira. O Presidente pediu então a Sérgio Vieira que lhe repetisse tudo o que lhe havia dito. Como Sérgio Vieira não contava ser confrontado com Joaquim Chissano, escuso de dizer que teve de se calar... sendo Chissano salvo deste modo, pois Samora confiava em Chissano, que se podia considerar um dos seus homens de confiança.

sábado, 30 de outubro de 2010

NESTE HALLOWEEN 2010...

...TUDO DE BOM PARA OS AMIGOS: SAÚDE...TRABALHO...DINHEIRO...AMIGOS DE VERDADE...AMOR... SORTE...
...MAS PORQUE ESTAMOS EM TEMPO DE HALLOWEEN, VAMOS PROCURAR QUE AS BRUXAS NÃO NOS FAÇAM BRUXEDOS E OS INIMIGOS NÃO SAIBAM OS NOSSOS SEGREDOS!
BOM HALLOWEEN, AMIGOS! PARA O ANO HÁ MAIS!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Moçambique pré-colonial

Os primeiros habitantes de Moçambique foram, muito provavelmente, os Khoisan, isto é Bosquímanes, que eram um povo de caçadores-recolectores.
Há cerca de 10.000 anos já Moçambique tinha um perfil aproximado ao que apresenta hoje em dia: Uma costa baixa, cortada por planícies de aluvião e que se encontrava parcialmente separada do Oceano Índico através de um cordão de dunas. Esta configuração fazia dela uma enorme região dotada de grande fertilidade, ostentando ainda hoje grandes extensões de savana onde pululam inúmeros animais indígenas. Tal situação dava azo a que estivessem encontradas as condições ideais para a fixação de povos caçadores-recolectores... e até de agricultores.
Nos séculos I a IV, a região começou a ser invadida pelos Povos Bantu, que eram essencialmente agricultores que já conheciam a manufactura e uso de artefactos de ferro. A base económica era então a agricultura, produzindo cereais locais, como por exemplo a mapira (Sorgo) e a mexoeira. Também praticavam a olaria e a tecelagem, além da metalurgia, mas isto apenas para suprir necessidades da família e para um incipiente comércio através da troca directa. Por tal razão, a estrutura social era de muita simplicidade, sendo baseada na "família alargada" ou linhagem, à qual era reconhecida a existência de um chefe. Os nomes destas linhagens nas línguas locais eram, entre outros: o Nlocko, na linguagem eMakua; o Liwele, em ciYao; o Pfuko, em ciChewa; o Ndangu, em chiTsonga.
A sociedade Moçambicana tornou-se muito mais complexa, mas muitas das regras de organização tradicionais ainda hoje são baseadas na linhagem.
Entre os séculos IX e XII começaram a fixar-se na costa oriental de África populações oriundas da região do Golfo Pérsico, naquele tempo um importante centro de comércio. Estes povos começaram por fundar entrepostos na costa africana e muitos geógrafos da época referiram-se à existência de um próspero e activo comércio com as "terras de Sofala", incluíndo a troca de tecidos da Índia por ferro, ouro ou outros metais.
De facto, o ferro era tão importante que se pensa que as "aspas" de ferro - em forma de X, com cerca de 30 cm de comprimento, abundantemente encontradas em estações arqueológicas na região - eram utilizadas como moeda, sendo estas mais tarde substituídas por outra que constaria de tubos de penas de aves cheias de ouro em pó - os METICAIS, cujo nome originou a actual moeda Moçambicana.
Com o crescimento demográfico, novas invasões e a chegada dos mercadores, a estrutura política tornou-se bastante mais complexa, com linhagens a dominar outras e, por fim, deu-se a formação de autênticos estados na região, sendo um dos mais importantes o primeiro estado do Zimbabwe.
Mas disso falaremos na próxima postagem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ACORDA, POVO!








A FRELIMO, sendo um "Partido" que desde sempre tem vindo a deter o poder em Moçambique, não deveria ter receios do aparecimento de novos Partidos, uma vez que, sendo maioritária, tem formas de controlar e levar o Povo Moçambicano a seguir as suas políticas...aliás o que tem acontecido desde que foi a única força negociadora dos acordos tendentes à independência.
No entanto, parece que o aparecimento do Movimento Democrático de Moçambique, talvez porque lembra os senhores do poder que Uria Simango foi assassinado por aquilo que representava para o seu Povo, porque era um líder prestigiado de tal modo que Samora o temeu. Foi portanto necessário dar-lhe sumiço... e apenas esperaremos que o seu herdeiro Daviz Simango não venha a ser sacrificado em holocausto da Pátria Moçambicana.
Afonso Dlhakhama e a RENAMO foram, durante muito tempo, uma pedra no sapato da FRELIMO, mas ele devia saber que uma mentira repetida até à exaustão torna-se numa "verdade", ainda que se veja a quilómetros ser um embuste tudo aquilo que se vem dizendo.
O Povo está cansado... porque tem sido chamado a optar sempre pelos mesmos que os governam desde que foram independentes e vê com apreensão que estes não pretendem ter ninguém a fazer-lhes frente. Com a RENAMO foi a guerra... com o MDM o que será? Qualquer constituição democrática confere direitos ao Povo, que pode optar por ser militantre de qualquer um dos Partidos, pois assim é determinado constitucionalmente.
Moçambique não é coutada de nenhum Partido... e estes apenas têm de encontrar forma de dar ao Povo bem estar, saúde, progresso, educação, trabalho, paz a todos os níveis, igualdade de oportunidades. É tempo de distribuír equitativamente os bens existentes no País, que apenas tem previlegiado aqueles que estão filiados no Partido governamental.
É assim que há um Presidente que tem fama de ser o homem mais rico de Moçambique - quando o conheci era um fulano remediado, que não passava privações mas não tinha fortunas no Banco Nacional Ultramarino. Em Portugal diz-se que "quem cabritos vende e cabras não tem... de algum lado lhes vem"!
Será que descobriu alguma mina de diamantes ou ouro... e não disse nada a ninguém?
Alguém dizia numa roda de amigos, que o MDM nasceu pelo desejo de mudança que se vive no País e a que nem a FRELIMO nem a RENAMO conseguem dar satisfação.
Não é democracia atirar pedras a um recém nascido... até pela cobardia que é atacar alguém só porque pensa diferente. Que os Moçambicanos possam unir-se e construír o futuro que merecem, não esquecendo que podiam bem ter evitado determinadas situações se tivessem olhado para Angola e aprendido a lição que foi o derramamento de sangue e a destruição provocados pela intolerância e ânsia da tomada do poder a todo o custo. Basta vêrem que o Presidente de Angola também não quer ninguém a disputar-lhe o poder... para não perder os previlégios de ser um dos homens mais ricos de África... enquanto o Povo continua com fome, esperando as migalhas que lhe possam calhar.
Será que o Povo Moçambicano não está farto de miséria? O sol, quando nasce, é para todos e não só para as gentes da FRELIMO.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

VIOLÊNCIA EM MOÇAMBIQUE

Maputo - a outrora portuguesa Lourenço Marques - tem sido massacrada por uma onda de violência popular, que já terá causado 10 mortos, mais de 100 feridos e cerca de 150 detenções.
As entradas da cidade têm sido o palco usado para a queima de pneus, acto que tem levado a Polícia a reprimir os tumultos, confrontando-se com os populares, que têm impedido algumas pessoas de sairem de Maputo, que continua a ser uma cidade isolada.

Segundo as notícias que chegam da capital Moçambicana, há uma certa acalmia nos confrontos, depois de ontem, na Avenida do Trabalho, no Bairro do Chamanculo, terem sido cortadas as estradas e colocados pneus a arder, levando a Polícia a carregar sobre os manifestantes, que têm procurado fazer chegar às autoridades Moçambicanas os ecos da sua oposição aos aumentos de preços decretados pelo Governo. A Polícia tem efectuado rusgas um pouco por toda a parte.
Também na Beira e no Chimoyo se registaram escaramuças. O comércio continua de portas fechadas.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O PRINCÍPIO DO FIM...

Guerrilheiros da FRELIMO
A guerrilha em Moçambique teve de lutar com algumas dificuldades, pela falta de quadros com formação académica superior, por um lado, e contra o divisionismo étnico e o tribalismo, pelo outro.
No entanto, os seus quadros politico-militares sempre foram formados no estrangeiro. A partir de 1963 irão ser estes quadros quem irá receber ordens para se dar inicio à luta armada no interior de Moçambique, traduzindo-se as primeiras acçõesnos ataques feitos ao posto do Chai, em Cabo Delgado, e ao posto de Cobué, no Niassa, acontecidos a 25 de Setembro de 1964.
Antes andou a guerrilha em manobras de propaganda política nas zonas de influência Maconde, que foi um dos esteios da FRELIMO durante o tempo que durou quase toda a guerra anti-colonial.
Estava bem de ver que o desaparecimento de Eduardo Mondlane viria a ser ultrapassado pelo Conselho da Presidência, que tinha como líder Uria Simango e era integrado por Marcelino dos Santos... e Samora Moisés Machel. Só que isto foi sol de pouca dura, porque a luta pelo poder desencadeou-se quase de imediato e levou a que Uria Simango, em Maio de 1970, tivesse de nomear Samora Machel para a Presidência do Movimento, momento a partir do qual, mercê da determinação de Machel, foi reforçada a actividade diplomática e militar, passando a ser representada a FRELIMO, a nível político, em todas as cimeiras dos países não allinhados e da OUA, que se realizaram em Lusaca e Adis Abeba no mês de Setembro de 1970.
Em Outubro de 1972, a convite da FRELIMO, o Secretário Executivo do Comité de Libertação da OUA visitou o interior de Moçambique, concluíndo que "a guerrilha exercia soberania" em várias zonas de fronteira com a Tanzânia, "em cerca de 300 Km, onde tinham a funcionar escolas e hospitais". Foi por causa desta visita que a FRELIMO veio a obter, no mês seguinta, o estatuto de observadora na OUA.
Nos finais do ano de 73, a guerrilha chega a norte do rio Buzi, começando então a penetrar nos subúrbios das cidades. De uma forma geral, as populações resolveram esperar pelos resultados da guerra, mas manifestam cada vez mais estar incomodadas com a presença portuguesa.
Kaúlza de Arriaga bem se desdobra em operações, mas o Ministro da Defesa não lhe concedeu o aumento de competências de que ele necessitava para que Angola e Moçambique ficassem sobre o mesmo comando nem lhe reforçou os homens e o material.
A ordem de Lisboa era "ganhar tempo"!

domingo, 25 de julho de 2010

HONRA AOS HERÓIS!

Quando em 10 de Junho, junto ao monumento aos Combatentes erguido em Belém, passava os olhos pelos nomes dos Heróis ali recordados, dei comigo a pensar que nem todos ali constavam, por razões várias, de entre as quais se poderá apontar o esquecimento a que alguns dos nossos maiores vultos, que escreveram com o seu sangue páginas de heroicidade... mas tiveram o azar de morrer em território onde drapejou a Bandeira Portuguesa, é certo, mas a lutar contra a implantação da dominação comunista nesse mesmo território.
Falo de alguém que foi grande em generosiodade, que se doou sempre pela liberdade, pela igualdade e pela justiça, que foi grande até na sua morte. Falo de Francisco Daniel Roxo, o Homem nascido em Mogadouro - Trás-os-Montes no dia 01 de Fevereiro de 1933 e que em Moçambique se fixou em terras do Niassa em 1951, onde foi caçador profissional até 1962.
Com o início da Guerra Colonial, veio a tornar-se, a partir de 1964, no lendário e temível Comandante das Milícias do Niassa, um grupo especial de contra-guerrilha composto por 30 mhomens da sua confiança. O inimigo da FRELIMO conhece-o por Diabo Branco, as populações do Niassa tratam-no carinhosamente por Comandante Roxo. Não é militar, mas as Autoridades Portuguesas reconhecem o seu trabalho e é condecora do por duas vezes com a Cruz de Guerra e atribuiram-lhe a Medalha de Ouro de Serviços Distintos.
Após a independência de Moçambique, Daniel Roxo, então com 41 anos, alistou-se nas Forças Especiais da África do Sul, indo prestar serviço no Batalhão 32 - Os Búfalos, com o posto de 1º. Sargento. Ele, que sempre fora o Comandante Roxo, aceitou as divisas de Sargento para continuar o combate por aquilo em que acreditava.
Em Angola, participou na Operação Savana, onde travou um épico combate contra as forças do MPLA e do Exército Cubano, vindo a obter ele e uns poucos de outros Portugueses, também integrados no Batalhão 32, a grande vitória da Ponte, em Dezembro de 1975, no Rio Nhia, onde o inimigo do MPLA e cubano foi copiosamente derrotado. Nessa batalha, o Batalhão 32 sofreu apenas quatro mortos, enquanto os antagonistas vieram a sofrer mais de 400 mortos, não se sabendo exactamente quantos foram porque alguns camiões angolanos e cubanos faziam a remoção dos corpos para o norte, durante os combates. Sabe-se, no entanto, que na refrega morreu o Comandante Raul Diaz Arguelles, um grande herói da Cuba de Fidel. O Batalhão 32 não necessitou de meios aéreos, bastando-lhe o uso da artilharia.
Terá sido a última batalha no século XX em que intervieram Soldados Portugueses.
No entanto, pouco tempo depois, Danny Roxo morria em combate, mas antes já havia recebido a mais alta condecoração militar sul-africana, a Cruz de Honra, equivalente à nossa Torre e Espada. No dia 23 de Agosto de 1976, numa emboscada no sul de Angola, quando andava numa patrulha perto do Rio Okavango, o seu 'Wolf' - viatura blindada anti-minas - , rebentou uma mina e foi virado ao contrário, matando um homem e esmagando Daniel Roxo debaixo dele. A restante tripulação tentou levantar o veículo, para possibilitar a sua libertação, mas este era demasiado pesado.
O antigo Comandante do Batalhão Os Búfalos relata assim os últimos momentos do Herói:

"Danny Roxo, mantendo-se com o seu carácter intrépido, decidiu tirar o melhor partido das coisas, acendendo um cigarro e fumando-o calmamente até que este acabou, e então morreu - ainda esmagado debaixo do 'Wolf''. Ele não se tinha queixado uma única vez, não tinha dado um único gemido ou grito, apesar das dores serem enormes, de certeza!".

Foi deste modo que morreu o Primeiro Sargento Danny Roxo, um Homem que se havia tornado numa lenda nas Forças de Segurança Portuguesas em Moçambique, e que rápidamente se veiio a tornar noutra lenda nas Forças Especiais Sul Africanas.
Deixou o Herói viúva e seis filhos.
É de Homens desta fibra que Camões dizia: "Honra-se a Pátria de tal gente!"

terça-feira, 6 de julho de 2010

Há Heróis assim...

O Engenheiro Agrónomo Jorge Pereira Jardim, nascido em Lisboa no ano de 1920 e que faleceu em 1978, foi um amigo de Oliveira Salazar, de quem foi Subsecretário de Estado da Agricultura, tinha apenas 26 anos, passando para o mesmo cargo no Comércio e na Indústria aos 28 anos.
A partir de 1952 enveredou pelo empresariato, estabelecendo-se em Moçambique na localidade do Dondo - uma vilazinha próxima da cidade da Beira. Empreendedor, desempenhou alguns papéis de relevo no cruzamento de interesses públicos e privados que o tornaram rapidamente num dos homens mais influentes de Moçambique.
Foi amigo pessoal de Ian Smith, primeiro Ministro da então Rodéia - hoje Zimbabwe -, tal como acontecia com o Presidente do Malawi, Dr. Hastings Kamuzu Banda.
De espírito aventureiro e tendo uma ligação privilegiada com o Governo de Lisboa, foi um activo participante em acções de cariz político e diplomático totalmente à margem dos circuitos oficiais, especialmente quando era necessário intervir para serem libertados Militares os portugueses aprisionados pela União Indiana, após a invasão da Índia
Mas foi no seu Moçambique querido que acabou por desenvolver uma actividade política que veio a interferir com o desenrolar dos acontecimentos relacionados com a política colonial portuguesa e com aquela colónia do Índico. Tentou uma independência pela via diplomática, chegando a apresentar o seu "Plano de Lusaka", que previa a independência de Moçambique sem entrega unilateral à FRELIMO, mas o facto de Joaquim Chissano, chefe dos serviços de segurança do Movimento ter sabido do Plano mas estar desconfiado que Jorge Jardim tenha estado envolvido nos "Massacres de Wiriamu, que Jardim visitara apenas para se aperceber da dimensão da tragédia, de que deu conta a Macelo Caetano, pondo fim à carreira do General Kaúlza de Arriaga, mais o ter acontecido o 25 de Abril, levou a que este plano viesse a ser substituído, posteriormente, pelo Acordo de Lusaka e pelas conversações directas entre o Governo de Portugal e a FRELIMO.
Ele foi cérebro e "padrinho" dos mauis que celebrados GE's (Grupos Especiais) e GEP's (Grupos Especiais Pára-quedistas, que eram forças operacionais de élite, com competências normalmente atribuídas às nossas Tropas Especiais Ranger, Comando, Fuso ou Pára. Tinham um pouco de cada uma delas.
Foi ele o cérebro do 7 de Setembro, no Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques. Escreveu o livrio "MOÇAMBIQUE, TERRA QUEIMADA".

segunda-feira, 28 de junho de 2010

MOÇAMBIQUE e os COMBATENTES

Estas crianças são os Heróis do Moçambique de hoje, pois lutam contra a fome...
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Quando digitava o anterior escrito, onde falo dos Combatentes Portugueses da Grande Guerra, e não só, porque África veio a trazer para a ribalta novos Combatentes - e aqui pretendo não esquecer os Heróis africanos de ascendência Moçambicana, Angolana ou Guineense, que combateram ao lado dos seus irmãos idos da Metrópole...acabando muitos por pagar bastante caro esse sinal de patriotismo -, recordei que também Moçambique comemora o seu Dia dos Heróis Moçambicanos, que ocorre no mês de Fevereiro, no dia 02, sendo este dia Feriado Nacional.
Nunca consegui perceber bem se a homenagem é feita àqueles que combateram nas matas, contra o colonialismo Português, e que acabaram, muitos deles, por ser assassinados pela própria FRELIMO, sendo os seus nomes esquecidos ao longo dos tempos, ou se será uma homenagem aos que, pelo banditismo, pelas sevícias e crueldade, traições, morte dos seus próprios irmãos , do seu Povo, aproveitando a "benemerência do Governo Português de então, que os levou ao poder.
Pergunto-me se essa homenagem do Dia dos Heróis engloba aqueles que foram mortos em Metetela, Lupilichi, Bilibiza ou outros campos de exterminio! Será que Urias Simango, Paulo Gumane, o Padre Mateus Gwengere, a Drª. Joana Simeão, Celina Simango, Júlio Razão, Filipe Magata ou outros milhares de pessoas assassinadas pela FRELIMO.
E os que lutaram ao lado da RENAMO, porque não queriam que o País fosse uma coutada totalitária da FRELIMO, até que aconteceram os acordos de Roma de 1992?
É que para a FRELIMO apenas são Heróis tipos como:
- EDUARDO MONDLANE, seu primeiro presidente e uma pessoa cuja vontade foi manobrada pelo marxismo-leninismo de Samora, Chissano, Marcelino dos Santos ou de Sérgio Vieira, entre outros, dos quais acabou por ser a grande vítima. Foi este Herói quem mandou matar Samuel Filipe Magaia, primeiro Comandante da guerrilha, para entregar essas mesmas forças a Machel e Chissano, ambos marxistas-leninistas;
-SAMORA MOISÉS MACHEL, o segundo presidente da FRELIMO, eleito de forma pouco clara e cuja personalidade e influência sobre Mondlane o levou a conseguir dominar a ala militar e receber o sim à morte de Samuel Magaia, para lhe ficar com o posto e a mulher, Josina Muthemba. Este Herói implantou um regime marxista de puro terror, logo que declarada a independência, cometendo crimes contra a Humanidade contra as populações;
- JOSINA MUTHEMBA MACHEL, que era mulher de Filipe Magais, casou com Machel após este lhe haver assassinado o marido. Figura sem relevo na vida da FRELIMO, apenas se lhe conhece o apoio dado às crianças nas bases do partido, em Cabo Delgado. Foi morrer no Hospital de Dar es Salaam, envenenada por ordem de Samora Machel, logo que se enamorou de Graça Simbine, que veio a ser Graça Machel e é hoje Graça Mandela, por casamento com Nelson Mandela;
- MARCELINO DOS SANTOS e JACINTO VELOSO são, desde sempre, das mais sinistras figuras do regime Moçambicano, não tanto pelo que representaram na luta de libertação como pelo que fizeram no após Revolução dos Cravos, quando condenaram à morte milhares de Patriotas Moçambicanos, nos chamados tribunais revolucionários de Nashingwea ou em outras bases da FRELIMO. Marcelino e Vieira são autores de crimes contra a Humanidade;
SÉRGIO VIEIRA, o irmão do bobo da Corte que dá pelo nome de "Conde" CASTELO BRANCO, vedete do escândalo, artista multidacetado que é a inspiração, a musa da homosexualidade lisboeta e não só, é um monstro que se auto-intitula "Coronel", talvez inspirado nos chefes dos jagunços do Sertão Brasileiro, de quem terá copiado a arte de matar, dado ser um carrasco digno de uma Gestapo. Também é autor de terríveis crimes contra a Humanidade, pelos quais deveria responder;
- ARMANDO EMÍLIO GUEBUZA,actualmente o Presidente de Moçambique, é o autor de toda a destruição do tecido económico acontecida após a independência, quando colocou em execução a infame ordem "24/20" e procedeu à deportação de centenas de milhar de Moçambicanos, enviados para azs zonas mais pobres e despovoadas do Niassa e de Cabo Delgado, onde acabaram por morrer vitimados pelos maus tratos, fome, trabalhos forçados e fuzilamentos em massa, como resultado da "Operação Produção" por si idealizada.
Moçambique não merece estar a comemorar a vitória dos seus algozes, pois tem muitos Heróis de verdade, bastando olhar-se para todo um Povo que vai lutando heróicamente contra as más condições de vida que aqueles que andaram a prometer-lhes uma vida melhor, bastando para isso "correr com os colonialistas brancos", mas nunca lhes explicando que estes apenas seriam trocados por outros, só não se sabendo até quando!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

DIA DO COMBATENTE...

No combóio do Catur...
Quando amanhã, Dia do Combatente, se enaltecer a participação dos Soldados Portugueses nas operações na chamada Guerra Colonial, do Ultramar, da Libertação ou aquilo que se convencionar chamar à saga heróica de muitos de nós que, deixámos família, amigos, o conforto do lar para nos abalançarmos nas agruras de uma guerra que não pedimos, não desejámos que tivesse acontecido, mas o sentido de soberania da Pátria nos levou a partir em socorro daqueles que estavam a sofrer na carne as inclemências de soezes ataques inimigos, porque praticados contra pessoas indefesas cujo único crime seria a côr da pele, não sei se não estaremos perante mais um exercício de demagogia .
O 10 de Junho é o dia para se fazer mais uma resenha histórica daquilo que para o Povo Português representou a guerra que se travou para que outros vivessem... e talvez até se ouça dizer, nos discursos de circunstância, que o inimigo de então foi apenas mais participante activo na luta pela liberdade e independência do seu povo... e isso até se entende e aceita, uma vez que acredito que de um lado e do outro das operações, as forças em confronto apenas lutavam pela paz, por muito estranho que possa soar esta afirmação.
Já são bastantes os anos que nos separam da guerra em África. Foi uma guerra fraticida aquela que marcou a presença das Forças Armadas Portuguesas no conflito, porque a nossa Pátria é o Mundo onde haja presença Portuguesa... e bem sabemos que vivemos num mundo em pedaços repartido.
Esta data do Dia do Combatente deverá ser sempre lembrada por nós, para que não se apague da memória dos nossos vindouros a glória dos que defenderam em terras de África o nome de Portugal. No entanto, seria bom recordarem-se as palavras de circunstância debitadas ao longo dos anos por alguns hábeis manipuladores de opinião, que endeusam pela palavra e destroçam pela acção, pois usam e abusam da demagogia no que concerne aos direitos dos Combatentes, como se constata pelos mais elementares direitos que lhes têm sido retirados, como o apoio na doença, por exemplo.
O antigo Combatente não é mais um activo útil para o País, no conceito dos queridos Governantes, pois apenas é útil quem tenha o cartão partidário no bolso... e o Militar não é partidário, logo não tem voz activa! Activo útil é quem "ganha" milhares de €€€ porque tem um passado no partido que esteja no poleiro! Para garantir "divisas" que se possam distribuir pelos "boys", é preciso retirar capacidade de sobrevivência aos que andaram pelo Ultramar, de armas na mão, e o melhor que se poderá fazer é não lhes proporcionar a assistência médica e medicamentosa necessárias, porque "eles" já estão "velhos" e a dever uns anitos à Previdência.
"A esperança de vida é uma chatice, pois esses Combatentes a receber reforma ainda são muitos...!" - pensarão alguns Governantes. Se hoje nem estamos em guerra...!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Domoína

Eis o relato de uma tempestade tropical que atingiu a antiga Lourenço Marques em meados dos anos 80:
"- Estava-se na década de oitenta quando o Sul de Moçambique foi fustigado por uma violenta depressão tropical, que ficou conhecida por Domoína.

Penso que seriam umas seis horas da tarde quando tudo começou. Durante aproximadamente doze horas, uma chuva torrencial abateu-se sobre o Maputo, vindo empurrada por ventos ciclónicos que atingiram os 180 km /h.
Na manhã seguinte fui dar uma volta pela cidade, que se apresentava sob um céu cinzento leitoso. O mar mostrava uma calmaria assustadora, pois mais parecia uma folha de alumínio e as ruas e avenidas da cidade viam-se pejadas de árvores de grande porte que foram virtualmente arrancadas pela força do fenómeno.
Cerca do meio dia as notícias chegavam mais concretas. A destruição incidira naturalmente no "caniço", onde muita gente ficou sem casa e a cidade de cimento estava privada de água e luz. Muitos carros foram também empurrados contra as árvores e ninguém parecia conhecer a dimensão exacta da tragédia. Foi já pela tarde que me apercebi haverem alguns milhares de pessoas que haviam ficado virtualmente isoladas ao longo dos rios Maputo, Tembe e Umbelúzi, sendo preciso fazer-se alguma coisa para as ajudar. A rádio lançava apelos a todos os possuidores de embarcações de recreio para ajudarem na recolha das vítimas das enxurradas.
Fui então apresentar-me de imediato no Clube Naval e após uma breve organização sobre quem iria ir para onde, lá rumei à foz do rio Maputo, que ficava a cerca de dez milhas a leste da cidade.
Pouco depois de ter deixado o Clube, comecei a aperceber-me da verdadeira dimensão da tragédia. Viam-se dezenas de animais mortos serem arrastados pela corrente, muitos animais domésticos e selvagens e o drama atingiu o pico mais alto quando, entre os animais, começaram a aparecer também cadáveres humanos flutuando entre os tectos das palhotas, bem como árvores inteiras, carcaças de viaturas velhas e muitos animais domésticos.
Contactei o controle das operações no Clube Naval, através do rádio, sendo entãos informados (éram oito os barcos destinados ao rio Maputo) que deveríamos seguir pelo rio acima e que desprezássemos os cadáveres, pois havia notícia de muitas centenas de pessoas abrigadas nas copas das árvores e, portanto, não poderíamos nem deveríamos perder tempo a recolher os corpos.
Subimos o rio numa operação bastante difícil, pois era praticamente impossível distinguir o leito, tal a massa de água que corria em direcção ao mar. Era um espectáculo duma violência indescritível, com milhares de hectares sob uma massa imensa de água lamacenta, arrastando os despojos para o mar. Logo que chegados a Salamanga (uma povoação entre Maputo e a Ponta do Ouro, que distava cerca de 15 quilómetros do litoral), começámos a ver as primeiras vítimas vivas. Eram dezenas de mulheres e crianças que estavam empoleiradas nas copas de árvores, gritando umas, cantando outras, com algumas das árvores a ameaçar cair de um momento para o outro. Procedemos então ao salvamento em condições bastante complicadas. Não só a manobrabilidade das embarcações exigia perícia e cuidado, por força da corrente e dos destroços arrastados como, surpreendentemente, as pessoas NÃO queriam abandonar as árvores.
E foi assim que por cada pessoa que eu conseguia meter no meu barco era necessário para além de verdadeiros prodígios de pilotagem, um autêntico sermão de um marinheiro do Clube que me acompanhava, o Judas, para convencer as vítimas a saltarem para o barco. Foi uma cena dramática... ver mulheres e crianças a gritar, em pânico, encavalitadas no cucuruto de árvores que se iam tornando cada vez mais frágeis... e a recusarem lançar-se para os barcos.
Regressámos a Maputo já era de noite, tendo salvado umas dezenas de pessoas, no conjunto dos oito barcos. A viagem de regresso fez-se em silêncio profundo, que só era interrompido pelos contactos rádio que davam nota da posição dos barcos da expedição. Aos comandos do barco eu ia pensando naquela gente que eu conseguira salvar, com a ajuda do Judas, e nos muitos que não pudemos salvar com o cair da noite. Senti uma grande revolta por ter de morrer gente assim.
Uns dias depois e numa cerimónia simples no Clube Naval, o Director Nacional do Departamento das Calamidades Naturais fez um pequeno discurso de agradecimento ao grupo de pessoas que colaboraram com as suas embarcações no salvamento de algumas vidas e recebemos um prémio simbólico: - Um saco de amendoim, uma embalagem de cigarros Palmar, um queijo do Chokwé, cinco embalagens de bolachas da "Ceres", uma peça de artesanato e uma capulana. Prémio que de imediato foi oferecido à organização de auxílio às vítimas, tendo reservado para mim apenas a peça de artesanato e um diploma de mérito concedido pelo Governo da Republica, na altura Popular, de Moçambique.
Nesse mesmo dia rumei à Ilha da Inhaca com a família (filhotes muito pequeninos ainda e um ainda por vir...) para o conforto do Hotel, que tinha água e luz, enquanto Maputo permanecia às escuras e sem água. Na mesma altura em que muita gente continuava em locais mais remotos, de acesso impossível, provavelmente na copa de uma árvore... à espera de morrer.
Nessa noite dormi muito mal..."
Gostava de dar a conhecer a pessoa cujo texto transcrevo. No entanto, talvez motivada por uma sempre provável "crise" de modéstia, não me foi possível saber a identidade de alguém que mostra ser detentor de uma solidariedade e filantropia que me apraz registar. Em nome daqueles que salvou, obrigado a seja lá quem seja o autor e salvador desconhecido !
Já nos anos 70, quando estava na então Lourenço Marques, tive a oportunidade de assistir a uma calamidade que em nada foi parecida com esta, porque não teve as mortes dramáticas agora relatadas, mas teve inundações e alguns mortos, porque as águas ganhavam velocidade quando desciam em direcção à baixa, destruíndo então tudo aquilo que encontrassem na sua passagem.
Questões de saneamento básico... dizia-se...

domingo, 2 de maio de 2010

A Operação ZETA...

Uma das mais conseguidas e bem organizadas operações militares acontecidas em Moçambique, no âmbito da Guerra do Ultramar que ali decorreu, simultâneamente como Angola e a Guiné, foi sem qualquer dúvida aquela que concertou uma acção entre o Comando do Sector de Mueda, o Comando das Tropas Pára-quedistas e a Força Aérea Portuguesa, que conseguiram reunir as condições necessárias para se desencadear a Operação Zeta.
A zona de intervenção constava de um local com terrenos bastante pantanosos, polvilhado de grandes escarpados e arribas, com arbustos rasteiros e linhas de água, o que desde logo levou os responsáveis pela logística a perceberem estar-se perante uma impossibilidade em assaltar os acampamentos da FRELIMO, que haviam sido detectados por via aérea, sem que fossem colocados em causa os princípios da surpresa e da eficácia.
Visando ultrapassar essas dificuldades, prepararam-se duas Companhias de Pára-quedistas para tomarem uma posição no terreno que fosse dominante através do envolvimento aéreo, saltando de pára-quedas.
Depois de terem saltado os precursores para efectuarem a balizagem, surgiu a sobrevoar a zona de intervenção o avião que transportava o primeiro grupo de combate... e os olhares dos mais nervosos procuravam abstrair-se de tudo o mais que não fosse o imprevisto da chegada ao solo. Logo que os largadores deram o sinal, os homens da Boina Verde perfilaram-se na carlinga dos aviões, verificaram e ajustaram os equipamentos e lá saíram eles, apressados, saltando para o espaço que os separa daquelas terras alagadiças situadas nas margens do rio Rovuma.
Era belo o poderem apreciar lá do alto o serpentear das águas correndo no leito do rio ou aquelas nesgas de areia para onde foi preparada a aterragem... mas os Pára-quedistas não se esqueciam do perigo de poderem estar na mira da arma de um inimigo qualquer que estivesse mais atento.
Chegaram ao solo rápidamente, como mandam as boas regras nos saltos operacionais, e logo trataram de reunir os grupos de combate, visando a defesa da zona e a segurança dos restantes companheiros que se deslocaram por via terrestre.
Foi assim que mais de duzentos Pára-quedistas surpreenderam e tomaram de assalto os redutos da FRELIMO, saltando sobre o Pântano Malambuage, onde abateram várias dezenas de guerrilheiros nos combates mais renhidos, apreenderam importantes quantidades de material de guerra e cercaram toda a zona onde se acontanava o inimigo.
Durante três dias, os Pára-quedistas trataram de fazer a consolidação das posições tomadas ao inimigo, bateram todo o terreno entre o rio Rovuma e a Base Limpopo, em Balade, a sul do pântano, detectaram e levantaram minas e armadilhas montadas pela FRELIMO, fizeram ligações aos grupos de combate doExército que estavam a formar tampão na zona a Sul, a Leste e a Oeste do rio Rovuma.
E nesses dias de intensa labuta, uma Companhia de Comandos tomou de assalto o acampamento logístico dos guerrilheiros, a Sul do pântano, duas Companhias de Cavalaria deram uma batida às brenhas situadas junto ao lago Lidede e vale do rio Nange, tendo ainda assaltado um hospital dos guerrilheiros, onde recolheram material de guerra diverso e alguns documentos, capturaram alguns elementos inimigos e da população que lghes dava apoio. Uma outra companhia do Exército bateu as terras a oeste do pântano e ajudou os Pára-quedistas a recolheros páraquedas.
O apoio aéreo foi muito importante, durante toda a operação Zeta, e para esse apoio foram utilizados um Dornier 27, no comando operacional, um helicóptero Alouette armado de canhão de 20mm, 8 aviões Harward T-6 G, para ataque aos grupos inimigos que tentavam escapar ao cerco, 2 aviões bombardeiros PV-2, 4 aviões de transporte Nord Atlas e três aviões de transporte Dakota, para o lançamento dos pára-quedistas. Foi a acção de bombardeamento inflingida aos grupos fugitivos que ajudou a amolecer o ímpeto combativo dos guerrilheiros e lhes cortou as linhas de fuga.
Porque se tratou de uma acção de guerra antecedida de uma recolha de informações bastante minuciosa e cuidadosamente testada, além do consequente secretismo necessário para o planeamento da missão em tão curto prazo, poderá dizer-se que a Operação ZETA foi uma das mais importantes missões militares alguma vez realizadas em Moçambique. Os resultados conseguidos atestam bem o sucesso das nossas tropas, mercê de uma coordenação que excedeu as melhores expectativas, se atentar-mos na impossibilidade de acessos a uma zona que era um santuário controlado pelo inimigo, além das distâncias a vencer a partir de qualquer ponto de apoio que não fosse apeado.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Lourenço Marques... Maputo...

A imagem acima reproduzida corresponde a uma simples estação... que foi só um dos mais belos edifícios portugueses alguma vez edificados em Moçambique, segundo os críticos. Trata-se da Estação de Combóios dos Caminhos de Ferro de Moçambique de Maputo - a antiga Lourenço Marques.
Qualquer "bife" que chegava à capital moçambicana parava a olhar, espantado e encantado, tão belo exemplar da arquitectura portuguesa. Os Laurentinos ou "Coca-Colas" reviam-se na sua estação, ex-libris da cidade tal como acontecia com a Fortaleza, o pórtico do Jardim, a Igreja de Stº. António da Polana, a Catedral, a Casa de Ferro, o Bazar ou a Câmara.Hoje as coisas hoje estarão um pouco diferentes, porque também as gerações vão sendo substituídas por novos membros e aqueles que ontem viam Lourenço Marques como uma cidade cosmopolita, que convidava os vizinhos sul-africanos, rodesianos, malawianos ou outros a gozar as cálidas águas das praias Moçambicanas, a beleza das suas paisaigens ou a delícia da gastronomia de Moçambique, das quais ressaltava o camarão e outros mariscos, peixes ou carnes de caça e não só, abundantes naquelas terras.
Mas... é no saneamento básico que encontramos uma diferença abissal. No tempo colonial, havia todo o cuidado em regularizar os leitos de cheia, porque se sabia quão melindrosa se tornava a situação nas ruas de Lourenço Marques quando se não tratava atempadamente da limpeza dos colectores. As cheias logo davam sinal... e as mortes podiam acontecer, como por vezes se verificava.

Talvez seja urgente fazerem-se as tais obras de saneamento básico tão necessárias, para que o problema de todos os anos deixe de se sentir, como as imagens documentam.
Mas há outros problemas gritantes em Moçambique, que é um País bastante carente a todos os níveis. Há o problema da SIDA, a fome, o desemprego, a justiça social... e tantas outras coisas que nem se sabe onde começam e terminam as necessidades deste povo a quem falta tudo, menos a esperança!
O socorro das lixeiras como modo de vida não pode continuar a fazer parte do quotidiano das pessoas! Há que deixar de lado orgulhos políticos, diferenças partidárias e darem-se as mãos na construção de um Moçambique novo, sem caciquismos nem lobis! É tempo de se darem todos as mãos e acreditarem que não é no comunismo ou no marxismo que está a solução para os problemas do País, mas sim na verdade e na cooperação, no trabalho e na partilha!
E Moçambique merece ser feliz!

Que esta imagem se veja erradicada definitivamente das paisaigens maravilhosas da Princesa do Índico!

quarta-feira, 31 de março de 2010

A todos os Amigos...

São os votos sinceros do autor. Que esta seja uma Páscoa de PAZ, AMOR, TRABALHO e MUITA SAÚDE! Que Aquele que RESSUSCITOU nos dê sempre a força e coragem necessárias para seguir os Seus Mandamentos!

sábado, 27 de março de 2010

O Parque da GORONGOSA... I

O "comandante Cara Alegre cumprimenta um Soldado Português
Durante dez anos (1964/1974), a FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique -desencadeou luta armada com vista à independência de Moçambique, a qual viria a terminar pouco depois do golpe militar em Portugal ocorrido a 25 de Abril de 1974, mais concretamente aoós a assinatura do Acordo de Luzaka a 7 de Setembro do mesmo ano, assinado entre os representantes do "governo de Lisboa" e uma delegação da Frelimo, chefiada pelo seu presidente Samora Moisés Machel.
Desde 1970 que a guerra, iniciada no norte, havia atingido o centro de Moçambique pelo que o Parque Nacional da Gorongosa veio a ressentir-se devido a algumas acções desenvolvidas pela Frelimo, nomeadamente depois de um ataque intimidativo feito às instalações do acampamento do Chitengo, em 1973, quando o mesmo se encontrava repleto de turistas. Esta situação levou as autoridades civis e militares de Moçambique a colocar no Parque uma Companhia de Militares portugueses e um grupo equivalente em número de homens armados da Organização Provincial de Voluntários – OPV.
A situação de guerra favorecia a acção dos caçadores furtivos, tanto residentes como idos das cidades e vilas, que se dedicavam a abater, indiscriminadamente, os grandes animais, sobretudo os elefantes.
Logo após o “25 de Abril” tudo se veio a agravar, devido à indisciplina que passou a reinar nos homens da OPV, também eles predadores dos efectivos dos grandes animais, quer para alimentação quer para o negócio da carne e do marfim. Os próprios guardas e os trabalhadores do Parque em geral, afectados pela confusão reinante, caíram numa indisciplina total, deixando de cumprir cabalmente as suas tarefas e passando os dias a reivindicar condições que eram impossíveis de satisfazer no momento que se estava a atravessar.
A primeira medida para acabar com a anarquia foi proceder à desmobilização e retirada do grupo da Organização Provincial de Voluntários, o que veio a acontecer em fins de Julho, cerca de 3 meses após o “25 de Abril” e depois de uma autêntica odisseia, foi possível, com o apoio das das tropas portugueses instaladas no Chitengo, desarmar e retirar os 120 homens da OPV e enviá-los para Lourenço Marques, onde tonham sido recrutados e preparados para a missão no Parque. O que tornou tudo mais difícil foi o facto de a retirada do grupo não ter sido decidida nem apoiada pelos altos comandos da OPV.
Esta é uma história que está morta e enterrada, como o estão tantas outras que ocorreram nesse período do fim da chamada “guerra colonial” e na transição que se seguiu até à independência de Moçambique, em 25 de Junho de 1975!
Imediatamente após a saída dos “voluntários”, foi resolvido contactar o mais breve possível os responsáveis da Frelimo que estariam sediados algures na base da Serra da Gorongosa e na margem esquerda do rio Púnguè. Dispunha-se de informações que existiriam tais bases e que o comandante da região seria um guerrilheiro famoso conhecido por "Cara Alegre".
Foi elaborada uma mensagem dirigida aos combatentes da Frelimo, exortando-os à defesa o Parque e a darem imediato apoio aos seus responsáveis, para resolução de graves problemas que ali decorriam, nomeadamente a caça furtiva e indisciplina entre os trabalhadores.
Aceite que foi a mensagem, entregue graças às boas relações do comerciante Santos Mosca com a Frelimo, dá-se o primeiro contacto com a população, que se concentrou frente ao complexo comercial e industrial de Santos Mosca e o comandante Cara Alegre foi convidado para se dirigir ao quartel militar, onde o Comandante do Batalhão Português, o Tenente-Coronel Cavaco, acompanhado dos representantes das autoridades locais e do Parque Nacional da Gorongosa, o recebeu no seu gabinete e lhe dirigiu algumas palavras de boas vindas, que foram retribuídas emotivamente pelo representante máximo da Frelimo na região da Gorongosa.

domingo, 14 de março de 2010

Um conto Moçambicano - III

Kwchira rezava o "Pai Nosso" todos os dias, tal como lhe foi ensinado pelo Pe. Francisco. Recordou-se também que sua mãe se queixava todos os dias da falta de pão.
- Pede pão a teu Deus... diz p'ra ele: Deus dá pão! - rosnou-lhe o soldado, que agora sorria cínicamente.
"Não era preciso pensar! Para quê duvidar? Padre Francisco sempre disse que Deus era bom, e que dava tudo o que se lhe pedisse..." - pensou para consigo Kwchira. E estendendo a mão em forma de concha, falou. E falou com ingenuidade pueril, falou como um 'Homem Grande', falou a sua fé... e a voz saiu-lhe rouca:
- Deus... dá a mim pão...
O sol abrasador continuou a brilhar e a queimar mais e mais a dura terra cor de sangue de Macuty, e a mão de Kwchira, em forma de concha, continuou estendida... estendida e vazia. E o "Pai Nosso" não lhe deu pão.
E um silêncio...
Um silêncio de Deus ardeu profundamente no coração pequeno de Kwchira. Sentiu embaciarem-se-lhe os olhos, a pontos de não conseguir descortinar claramente o grupo de soldados que tinha à sua frente, e que mais rasgaram o rosto com gargalhadas que mais pareciam uivos de hienas em tempo de cio. Kwchira não percebeu que uma lágrima se lhe escapara do canto do olho, e escorria agora, mansamente, afagando com ternura o rosto negro, negro de criança.
- Agora pede pão a Samora. Diz: Samora dá pão! - falou em tom muito baixo o soldado, tentando fazer crêr ter alguma compaixão.
- Vai... pede pão a Samora! - repetiu o soldado, num tom de fingida paternidade.
- Samora... dá a mim pão. - sibilou entre dentes o pequeno Kwchira.
Um sorriso deformou o rosto preto de ferro do soldado, que muito calmamente meteu a mão no bolso da calça, puxando por um pedaço de pão embrulhado num papel e estendendo-o a Kwchira.
- Toma, que quem te dá é Samora... teu Deus não te deu nada porque não existe!
Kwchira estendeu a mão e recebeu o pedaço de pão embrulhado no papel. Recebeu as trinta moedas que pagavam a morte do seu Deus... um pedaço de pão que crucificava o Deus do Padre Francisco.
Rodopiou sobre os seus calcanhares e caminhou na direcção contrária, com os olhos fixos no pedaço de pão, as trinta moedas que mancharam de sangue as mãos de Judas e que faziam Kwchira perder-se em mil pensamentos, que bombardeavam brutalmente a sua cabecinha pequenina de criança. Caminhava em direcção contrária à dos soldados, e sem dar por isso, caminhava em direcção à Igreja feita de barro e de canas, como que enfeitiçado pela magia do espiritual negro que a assembleia aí entoava. Os espirituais negros são, na verdade, cânticos mágicos e só os negros os sabem cantar.
- Kwchira!... que me trazes? Pão?
O olhar de Kwchira chocou com a figura magra do Padre Francisco, com os seus olhos muito abertos, e não suportou.
- Meu filho... quem te deu esse pedaço de pão? Ah... Senhor... Senhor!!! Como és misericordioso... - soluçou o Padre Francisco, deixando-se emocionar pelo milagre. - Hoje vamos poder celebrar a Tua ressurreição... graças a Deus! - acrescentou, limpando as lágrimas com as mãos.
Olhou com ternura para Kwchira, que estava visivelmente assustado, pois nunca vira Padre Francisco em tal estado.
- Ah, Kwchira... não tinhamos pão para celebrar a Páscoa de Senhor... Isto faz-me lembrar Abraão... "O Senhor providenciará um cordeiro manso para o sacrifício..." - disse ainda cheio de emoção o Padre.
Kwchira não percebeu nada do que se passara, mas sentia uma grande paz invadir-lhe o coração. Era a paz de Deus, que mansamente acarinhava e sossegava o menino e lhe dava sabedoria para compreender que o "Pai Nosso" tinha dado pão...! É... o "Pai Nosso" tinha dado pão... e os filhos de Macuty poderiam também celebrar a Páscoa do Senhor.
O sol poente já declina no horizonte, e a bola alaranjada que lameja nas águas serenas do rio Limpopo anuncia a noite. E de longe, bem longe, se ouve o toque do batuque..., se ouve o toque do batuque..., o toque do batuque..., o batuque..., tuque... tuque...
...e no entanto, o confronto entre as ideologias
e a mensagem evangélica, continua... e conti-
nuará...: Este Kwchira e estes soldados não são
mais que protagonistas do nosso tempo, e na
luta entre David e o gigante Golias...
...Kwchira venceu!

sábado, 13 de março de 2010

Um conto Moçambicano...II

Próximo da palhota feita de canas e barro, um grupo de soldados conversava animadamente sobre os seus heroísmos e saudosismos dos tempos da guerra, quando Kwchira surgiu abruptamente, em desenfreada correria - as crianças andam sempre em correrias -, furando entre a multidão de pessoas que afogavam a rua.
Kwchira era um menino igual a muitos outros meninos da sua aldeia. Os seus dentes, muito brancos, sobressaíam no seu rosto preto de menino.
- Ei, miúdo... anda cá! - alguém chamou do grupo de soldados.
Kwchira estacou. Olhou, meio incrédulo, para o grupo de soldados que, orgulhosamente, exibia as suas metralhadoras.
- Buera Kuno! - insistia o soldado, reforçando o chamamento com um gesto da mão.
Kwchira aproximou-se, receoso. Não gostava de soldados! Tinha pavor às armas desde a noite em que uns homens trouxeram o seu pai aos ombros, com um grande buraco na garganta. Tinham sido os soldados, disseram-lhe. A partir daí, qualquer soldado era o assassino do seu pai!
- Tu vai na reza? - perguntou-lhe, seco, o soldado.
- Si... eu vai na reza! - respondeu-lhe, vacilante, o pequeno Kwchira.
- Que tu vai fazer na reza? Tu acredita no Deus? - replicou o soldado, que foi acompanhado por um coro de gargalhadas.
Os olhos de Kwchira tornaram-se maiores, enormes, e na sua pequena testa esboçou-se uma ruga. Não precisava pensar na resposta. Sabia-a de cor. Padre Francisco já o tinha ensinado.
- Si! Eu acredita... respondeu.
As gargalhadas atingiram um tom mais estridente. Apenas o soldado que tinha interpelado Kwchira permaneceu impassível. E olhando o pequeno com dureza, disse-lhe:
- Esse Deus não existe! Deus só há um... o Presidente Samora Machel! Esse é que é o teu Deus, esse é que lutou para a tua liberdade e para tu teres pão! - disse o soldado, ao mesmo tempo que apontava para o crachá que trazia pregado ao peito, com uma fotografia do Presidente de Moçambique.
Foi a vez do pequeno Kwchira sorrir, mostrando os dentes pequeninos, muito brancos, e, como um grande homem, testemunhou a grandeza dos seus talentos:
- Padre Francisco dizer a mim... Deus é bom!...
- Ah é? Teu Deus então é bom? Então pede pão ao teu Deus! - disparou-lhe o soldado, tentando deste modo destruír os andaimes da fé que já se espelhavam no rosto criança de Kwchira.
O coro de risos fez-se ouvir de novo, de forma hilariante, misturado com alguns "deixa lá o miúdo" dos mais complacentes.
Kwchira fulminou com o olhar o grupo de soldados... '''recordou-se do seu pai e daquela noite em que o viu entrar em casa com a garganta furada, e... recordou-se que nunca mais chamou pai a ninguém... só a Deus... porque o Padre Francisco lhe tinha ensinado que esse Deus era o Pai de todos e também o pai de Kwchita e'''... estremeceu.
"Pedir pão a Deus"... murmurou para consigo e... recordou-se das palavras do "Pai Nosso", a oração que já sabia de cor,... "O pão nosso de cada dia nos dai hoje...". (CONTINUA)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um conto Moçambicano... I


"SE DEUS DESSE PÃO..."

"Recorda! A recordação está cheia de ensinamentos
úteis. Nos seus reconditos existe o necessário para
mitigar a sede da "élite" dos que venham a beber."
(Sidi Yaya)

Alguns dos personagens referidos neste conto, já a terra os tragou!
Este conto é uma homenagem a todos esses "imortais" que "sulcaram" vales profundos, na história de um país, que outrora sonhara a independência.
"Imortais" porque, na luta pela construção de um país novo, cada um fazendo-o à sua maneira, gravaram com o sangue, na memória das gentes, os seus "heróicos feitos". E hoje recordo-os porque, na verdade, a recordação traz sempre ensinamentos muito úteis...
...e no entanto, o confronto entre as ideologias (dos homens) e o evangelho (de Cristo), continua e... continuará...
...Óh...! Se Deus desse pão...
O sol abrasador esbatia-se, ardentemente, sobre o solo vermelho de Macuty, uma aldeia situada a 300 Km leste de Inhambane, próximo do grande rio Limpopo, que rasga a terra côr de sangue e vai matar a sede à deusa Bawa que, serena, aguarda a água, onde a terra acaba.
Macuty era uma aldeia escondida a meio do caminho do fim do mundo, uma ilha cor de sangue situada no coração da floresta Guiandwa (que quer dizer "filha da chuva"). Era um recanto onde as palhotas de cana e barro emergiam da terra como formigueiros gigantes, onde os homens e as mulheres eram de cor negra, onde as crianças ainda sabiam brincar sem bonecas nem armas, onde os velhos, porque eram sábios, sabiam os nomes e as histórias das estrelas, que vaidosamente brilhavam no céu, em noites de luar.
Apesar do calor que se fazia sentir, o povo da aldeia preparava com vivo entusiasmo a festa do 2º. aniversário da independência de Moçambique. Por toda a parte se embandeirava o símbolo único da liberdade, a bandeira das cinco cores. A farda verde da multidão de soldados negros, que circulavam pela aldeia, contrastava violentamente com a cor vermelha da terra. Em seus rostos estampava-se a alegria, a exuberância e o orgulho, que se misturavam com a sombra da desilusão, vincada pela ruga do desalento e da frustração em que tinham redundado os dois anos de liberdade, de esperança e de paz, outrora tão cantada e prometida.
Mas o dia é de festa e de alegria. É dia de renovação de promessas, é dia de acender de novo o fogo da esperança, já desvanecida, é dia de voltar a acreditar em quem promete, de dar um voto de confiança ao Presidente da Frelimo e acreditar que as condições de vida melhorarão, e que ninguém mais da aldeia de Macuty morrerá de fome.
Mas o dia é ainda de festa e de alegria porque é Domingo. É dia de acreditar também no Padre Francisco, que faz promessas em nome de um certo Deus, um Deus maior e mais poderoso que a deusa Bawa, um Deus que não se importa de ser pai de todos, também dos brancos.
Numa grande palhota feita de canas e barro, que ostentava uma Cruz de pau-preto no cimo da porta de entrada, o Padre Francisco falava da bondade e da misericórdia do Deus Pai, falava do amor, da justiça e da bondade do "Pai" em salvar todos os homens. Dos seus lábios as palavras saíam como a água cristalina da fonte viva, que jorra abundantemente, e mata a sede dos corações sequiosos, reacendendo neles a chama da esperança. Os que o escutavam bebiam cada palavra, cada sílaba, e neles o feitiço do espírito semeava a semente do grão de mostarda nos corações. E assim a tribo juntava-se às tribos de Israel, e tornavam-se filhos de Deus.(continua)

terça-feira, 9 de março de 2010

Terras do Niassa... e não só!

Com o correr dos tempos, vão-se diluíndo algumas imagens da que um dia se chamou Nova Freixo, a Cuamba pós independência, que ainda está bem vincada na memória de quem um dia por lá passou, cumprindo o dever patriótico de defender um rincão de uma terra que um dia foi Portugal em África.
Não era uma cidade cosmopolita, de grandes e largas avenidas a fervilhar de carros e pessoas na hora de ponta, mas sim uma tranquila cidadezinha de interior, situada naquelas terras vermelhas do Niassa que nos deixava a pele parecida com a dos "pele-vermelhas" americanos depois que se dava um passeio nos velhos Willis ou Land Roveres da "Tropa", já não falando dos tão conhecidos Unimog ou nas Berliett, que enchiam as poeirentas ruas de nuvens de um pó fininho que nos entrava nas gargantas e convidava a beber umas "basookas" nos bares do Sobral ou do Caldeira... se fossem estes que estivessem mais à mão, porque havia sempre a hipótese de ir ao Pontes ou ao Raimundo...
O que é verdade é haver em nós, que por lá andámos, um sentimento de nostalgia sempre que se fala de Moçambique, ou porque um qualquer governante resolveu ir "passear" até àquela terra do Índico, aproveitando o facto de ter a viagem e estadia por conta do Povo... como outrora acontecia aos "Maçaricos" que para lá iam calcorrear as matas, dar uns tiritos, comer umas mangas ou uns abacaxizinhos, beber umas Laurentinas e, nos momentos de ócio, passearem todo o "charme" nas sanzalas, feitos uns D. Juans de trazer por casa... porque isso era coisa também acontecia por lá, acredite-se ou não.
No Colégio de São Teotónio as jovenzinhas suspiravam quando viam passar os galantes e garbosos homens da Força Aérea... talvez com a secreta esperança de poderem um dia voar para a Metrópole nas asas de um pilotaço ou metidas na caixa de ferramentas de uma mecânico de avião... quem sabe?
A terra é realmente vermelha, mais parecendo ter sido salpicada com o sangue dos nossos rapazes, que se terão lembrado de fazer um jeitinho à Frelimo, dando o peito generoso às balas inimigas.
Muitos anos já são passados... mesmo que o Mitucué continue no mesmo sítio, tal como o Morro do Elefante! No entanto, a nossa saudade ainda anda por lá, ora junto à estação, assistindo ao rangue-rangue de uma chegada do "São combóio", participando numa noite de fados no "Solar do Açoreano" ou numa jogatana de futebol de salão no campo do Desportivo...
...e dizem que a saudade não mata, o que deve ser verdade, mas dói tanto...