domingo, 21 de fevereiro de 2010

Cuamba – a antiga NOVA FREIXO

A Cidade de Cuamba - antiga Nova Freixo -, Sede do Distrito do mesmo nome – antigo conselho de Amaramba -, é, a seguir a Lichinga, – antiga Vila Cabral -, o maior centro urbano da Província do Niassa, não só pelas facilidades de acesso, como também pela sua localização excêntrica relativamente às províncias do Niassa, Zambézia e Nampula. No contexto geográfico, situa-se a cidade na extremidade Sul da província do Niassa, a cerca de 300 Km de Lichinga, tendo como limites fïsicos o rio Ntipuehi, a Nordeste; os rios Namutimbua e Mathimba, a Sudueste; o rio Nincara, a Noroeste e o rio Muandá, a Sudeste.
Tem uma superfïcie de 131 Km2 e uma população estimada de 56.801 habitantes ( segundo o Censo de 1997), estando a Cidade estrururada em 11 bairros com a designação seguinte: - Adine I (Central); Adine II: Adine III; Mutxora; Airoporto; Rimbane; Nacto; Tetereane; Macanga; Mucuapa e Matia.
Económicamente, a Cidade ocupa um lugar de destaque no desenvolvimento provincial, dado beneficiar de uma linha férrea que estabalece a ligação a Lichinga, ao Porto de Nacala ou à República do Malawi.
UM POUCO DE HISTÓRIA: - Com o advento da penetração colonial, iniciada no século XVI, deu-se a chegada de um comerciante Português de nome João de Jesus Maria, o qual, provindo de Quelimane, veio a acampar junto ao lago Chirwa, onde tomou posse do território. Esse era um local então conhecido entre os naturais por "Muluco Otela", que, traduzido para português, significa “Poço Branco”. Esta expressão acabou “estropiada” pelos Portugueses, que lhe chamaram “Malacotala” e, com o passar dos tempos, acabou corrompido para “Malacotera” ou “Malacotela”.
Malacotela, situa-se no rio Muanda e era o local onde os comboios faziam a captação da água para as locomotivas. Após a independência, ao local foi atribuído o nome de Cuamba, em homenagem ao antigo régulo Cuamba que, em 1889, se havia destacado na resistência contra a ocupação Portuguesa, apoiado pelos comerciantes Indianos, que já estavam espalhados por todo o Moçambique. Para se defenderem, os Portugueses viram-se obrigados a solicitar o apoio da Companhia do Niassa entre 1901- 1902, construíndo então o forte “D. Carlos” juntamente com o Conselho, na margem Leste do Lago Amaramba.
A povoação, embora seja bastante antiga, foi oficialmente criada em 1937, tendo a Sede em Cuamba (Portaria nº3210, de 24 de Novembro). Em 1952, esta povoação de Cuamba - Sede da Circunscrição de Amaramba - passou a designar-se Nova Freixo. No dia 26 de Setembro de 1962 foi elevada a categoria de Vila, e a partir de 30 de Setembro de 1971 recebeu foral de Cidade, conforme as portarias nº.16370/62 de 26 de Setembro, e nº.793/71, de 30 de Setembro .
Com a proclamação da independência, houve algumas alterações na organização administrativa da Cidade: - a cidade de Nova Freixo passou a designar-se Cuamba, voltando a ser considerada Vila, ao abrigo do Decreto nº.10/76, de 13 de Março, sendo a Camara Municipal transformada no Conselho Executivo do Distrito, pelas Leis nº.6 e 7/78, de 22 de Abril.
Pela Resolução nº.8/86, de 26 de Julho, foi elevada a Vila à categoria de Cidade, sendo categorizada de nível “D”.pela Resolução nº.7/87, de 25 de Abril.
No ano de 1994 foi a Cidade de Cuamba elevada à categoria de Distrito Municipal, ao abrigo da Lei nº. 3/94, de 13 de Setembro, que viria a ser revogada pela Lei 10/97, de 31 de Maio, que elevou Cuamba à categoria de Município... que já tinha antes de acontecer a independência, quando era a nossa saudosa Cidade de Nova Freixo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

D. Eurico, Bispo do Niassa - um Homem de coragem

D. Eurico Dias Nogueira, que em Dezembro de 1964 foi ordenado bispo, recebeu do Vaticano uma difícil missão: abrir em Moçambique a nova diocese de Vila Cabral - passou a chamar-se Lichinga após a independência- que se situava no Noroeste da então Província de Moçambique.
Trata-se de uma vasta região com 120 mil km2,mas com apenas 270 mil habitantes, maioritáriamente muçulmanos. A missão do novo Bispo é duplamente espinhosa, pois desde Setembro que vimos a guerra chegar àquela antiga colónia e ao lago Niassa, levada a cabo pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
Logo que se sagrou Bispo, logo foi objecto de atenção por parte da PIDE, que já antes o referenciara. Desta vez foi por causa de um recorte do jornal «La Mañana», de Montevideo, que contém uma notícia da AP que foi difundida a partir de Lisboa. Dizia a agência norte-americana que «um bispo português pediu menos censura governamental nos meios de Informação e liberdade de imprensa», quando, em Lisboa, falou numa homilia que assinalava o aniversário do diário católico «Novidades». O Bispo, que é também jurista, solicitou «uma lei clara e boa para garantir a liberdade de informação, pois só assim poderá a imprensa informar a verdade». A PIDE já havia decidido abrir um processo ao ainda Padre Eurico Dias Nogueira, porque este, em 1958, escrevera uma carta ao Bispo do Porto, que se exilara.
A partir deste recorte, a direcção da PIDE faz um primeiro pedido ao Serviço de Ficheiros sobre as informações existentes a respeito do bispo, que, em Janeiro, voltaria a ser notícia.
D. Eurico instala-se na novíssima diocese de Vila Cabral, no Niassa, onde fez questão de chegar simbolicamente no dia 1 de Janeiro. Em Fevereiro, o responsável da PIDE na então Lourenço Marques -hoje Maputo- dá o alerta a Lisboa: «O Sr. Bispo de Vila Cabral (…) tem patenteado atitudes de hostilidade, censura e pouco reconhecimento para com o GovernoEm Abril, a guerra já alastrara por todo o distrito do Niassa, que tem por capital a cidadezinha de Vila Cabral. A guerrilha alarga-se a todo o Norte e o quadro é descrito pelo prelado, num tom bastante crítico, numa carta enviada ao Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira: «Os militares começam por aqui a morrer às mãos dos terroristas. Mas ninguém lhes pode acudir rapidamente porque ou não há estradas, ou não dão passagem por falta de pontes e entretanto constrói-se a auto-estrada para a Matola, a ponte turística para a ilha de Moçambique… A tragédia e a possível perda da Província hão-de dar-se pelos Distritos de Cabo Delgado e Niassa, criminosamente abandonados pelas Autoridades Administrativas. Estas não gostam que se fale, mas há silêncios que constituem conivência nos crimes alheios

Lógico que apenas um mês após a entrada solene na Diocese, o Bispo da Diocese D. Eurico leva a Polícia a queixar-se dele a Salazar!
Na carta que escreve perpassa um sentimento de revolta contra o que designava como «a desgraça» que veio encontrar no Niassa: «Eu por aqui continuo a aturar um Governador de Distrito que não possui o mínimo de ’savoir faire’ (para não dizer coisa pior)» - referência ao então major Costa Matos, conhecido por «petit Napoleon»… As queixas estendem-se ao governador-geral de Moçambique, o general Costa Almeida, cujas «promessas (…) já estão a tardar demasiado». E a carta prossegue: «Talvez um dia a minha voz se faça ouvir e cause escândalo nos homens da política bem instalados na vida ou facilmente acomodáveis. Não vim para o Niassa para passar o tempo a tomar café com os ‘grandes’ da terra e chá com as respectivas esposas, como talvez eles desejassem (…) Se nada aqui puder fazer, hei-de um dia explicar à Nação o motivo dos meus forçados braços caídos.»

Numa mensagem ao reitor de Coimbra, escreve que as «selvas do Niassa» se apresentam «cada vez mais complicadas e traiçoeiras (…) Tudo mudou e o ar torna-se cada vez mais irrespirável (…) A pequena cidade está completamente rodeada de bandoleiros, se é que não andam livremente dentro dela, disfarçados em empregados, trabalhadores, cipaios, etc. Quase todas as noites se ouvem tiros e explosões aqui à volta (o que vale é que eles apontam muito mal e por isso as vítimas não têm sido numerosas)».

O Bispo vivia a três quilómetros da cidade, na casa de uma Missão, sem qualquer protecção, apesar das promessas feitas pelas autoridades, que, no entanto, não se cansam de o vigiar, a pontos de ele desabafar: «É possível que esta carta seja lida no caminho abusivamente por terceira pessoa, pois de há muito que os ‘direitos, liberdades e garantias’ consignadas no art. 8º, nº 6 (segunda parte), da Constituição Política são palavras vãs em Moçambique, sobretudo pelo que respeita aos Bispos».
Uma conversa, por ele tida em Lisboa, com Salazar, deixou-lhe boa impressão, «mas parece-me que daí para baixo anda tudo de olhos fechados: não vêem, não querem ver ou… fingem que não vêem».
Eis, em súmula, D. Eurico Dias Nogueira, Bispo Emérito de Vila Cabral e Sá da Bandeira, um Homem na verdadeira dimensão da palavra! O Niassa e Moçambique muito lhe devem!