quarta-feira, 31 de março de 2010

A todos os Amigos...

São os votos sinceros do autor. Que esta seja uma Páscoa de PAZ, AMOR, TRABALHO e MUITA SAÚDE! Que Aquele que RESSUSCITOU nos dê sempre a força e coragem necessárias para seguir os Seus Mandamentos!

sábado, 27 de março de 2010

O Parque da GORONGOSA... I

O "comandante Cara Alegre cumprimenta um Soldado Português
Durante dez anos (1964/1974), a FRELIMO - Frente de Libertação de Moçambique -desencadeou luta armada com vista à independência de Moçambique, a qual viria a terminar pouco depois do golpe militar em Portugal ocorrido a 25 de Abril de 1974, mais concretamente aoós a assinatura do Acordo de Luzaka a 7 de Setembro do mesmo ano, assinado entre os representantes do "governo de Lisboa" e uma delegação da Frelimo, chefiada pelo seu presidente Samora Moisés Machel.
Desde 1970 que a guerra, iniciada no norte, havia atingido o centro de Moçambique pelo que o Parque Nacional da Gorongosa veio a ressentir-se devido a algumas acções desenvolvidas pela Frelimo, nomeadamente depois de um ataque intimidativo feito às instalações do acampamento do Chitengo, em 1973, quando o mesmo se encontrava repleto de turistas. Esta situação levou as autoridades civis e militares de Moçambique a colocar no Parque uma Companhia de Militares portugueses e um grupo equivalente em número de homens armados da Organização Provincial de Voluntários – OPV.
A situação de guerra favorecia a acção dos caçadores furtivos, tanto residentes como idos das cidades e vilas, que se dedicavam a abater, indiscriminadamente, os grandes animais, sobretudo os elefantes.
Logo após o “25 de Abril” tudo se veio a agravar, devido à indisciplina que passou a reinar nos homens da OPV, também eles predadores dos efectivos dos grandes animais, quer para alimentação quer para o negócio da carne e do marfim. Os próprios guardas e os trabalhadores do Parque em geral, afectados pela confusão reinante, caíram numa indisciplina total, deixando de cumprir cabalmente as suas tarefas e passando os dias a reivindicar condições que eram impossíveis de satisfazer no momento que se estava a atravessar.
A primeira medida para acabar com a anarquia foi proceder à desmobilização e retirada do grupo da Organização Provincial de Voluntários, o que veio a acontecer em fins de Julho, cerca de 3 meses após o “25 de Abril” e depois de uma autêntica odisseia, foi possível, com o apoio das das tropas portugueses instaladas no Chitengo, desarmar e retirar os 120 homens da OPV e enviá-los para Lourenço Marques, onde tonham sido recrutados e preparados para a missão no Parque. O que tornou tudo mais difícil foi o facto de a retirada do grupo não ter sido decidida nem apoiada pelos altos comandos da OPV.
Esta é uma história que está morta e enterrada, como o estão tantas outras que ocorreram nesse período do fim da chamada “guerra colonial” e na transição que se seguiu até à independência de Moçambique, em 25 de Junho de 1975!
Imediatamente após a saída dos “voluntários”, foi resolvido contactar o mais breve possível os responsáveis da Frelimo que estariam sediados algures na base da Serra da Gorongosa e na margem esquerda do rio Púnguè. Dispunha-se de informações que existiriam tais bases e que o comandante da região seria um guerrilheiro famoso conhecido por "Cara Alegre".
Foi elaborada uma mensagem dirigida aos combatentes da Frelimo, exortando-os à defesa o Parque e a darem imediato apoio aos seus responsáveis, para resolução de graves problemas que ali decorriam, nomeadamente a caça furtiva e indisciplina entre os trabalhadores.
Aceite que foi a mensagem, entregue graças às boas relações do comerciante Santos Mosca com a Frelimo, dá-se o primeiro contacto com a população, que se concentrou frente ao complexo comercial e industrial de Santos Mosca e o comandante Cara Alegre foi convidado para se dirigir ao quartel militar, onde o Comandante do Batalhão Português, o Tenente-Coronel Cavaco, acompanhado dos representantes das autoridades locais e do Parque Nacional da Gorongosa, o recebeu no seu gabinete e lhe dirigiu algumas palavras de boas vindas, que foram retribuídas emotivamente pelo representante máximo da Frelimo na região da Gorongosa.

domingo, 14 de março de 2010

Um conto Moçambicano - III

Kwchira rezava o "Pai Nosso" todos os dias, tal como lhe foi ensinado pelo Pe. Francisco. Recordou-se também que sua mãe se queixava todos os dias da falta de pão.
- Pede pão a teu Deus... diz p'ra ele: Deus dá pão! - rosnou-lhe o soldado, que agora sorria cínicamente.
"Não era preciso pensar! Para quê duvidar? Padre Francisco sempre disse que Deus era bom, e que dava tudo o que se lhe pedisse..." - pensou para consigo Kwchira. E estendendo a mão em forma de concha, falou. E falou com ingenuidade pueril, falou como um 'Homem Grande', falou a sua fé... e a voz saiu-lhe rouca:
- Deus... dá a mim pão...
O sol abrasador continuou a brilhar e a queimar mais e mais a dura terra cor de sangue de Macuty, e a mão de Kwchira, em forma de concha, continuou estendida... estendida e vazia. E o "Pai Nosso" não lhe deu pão.
E um silêncio...
Um silêncio de Deus ardeu profundamente no coração pequeno de Kwchira. Sentiu embaciarem-se-lhe os olhos, a pontos de não conseguir descortinar claramente o grupo de soldados que tinha à sua frente, e que mais rasgaram o rosto com gargalhadas que mais pareciam uivos de hienas em tempo de cio. Kwchira não percebeu que uma lágrima se lhe escapara do canto do olho, e escorria agora, mansamente, afagando com ternura o rosto negro, negro de criança.
- Agora pede pão a Samora. Diz: Samora dá pão! - falou em tom muito baixo o soldado, tentando fazer crêr ter alguma compaixão.
- Vai... pede pão a Samora! - repetiu o soldado, num tom de fingida paternidade.
- Samora... dá a mim pão. - sibilou entre dentes o pequeno Kwchira.
Um sorriso deformou o rosto preto de ferro do soldado, que muito calmamente meteu a mão no bolso da calça, puxando por um pedaço de pão embrulhado num papel e estendendo-o a Kwchira.
- Toma, que quem te dá é Samora... teu Deus não te deu nada porque não existe!
Kwchira estendeu a mão e recebeu o pedaço de pão embrulhado no papel. Recebeu as trinta moedas que pagavam a morte do seu Deus... um pedaço de pão que crucificava o Deus do Padre Francisco.
Rodopiou sobre os seus calcanhares e caminhou na direcção contrária, com os olhos fixos no pedaço de pão, as trinta moedas que mancharam de sangue as mãos de Judas e que faziam Kwchira perder-se em mil pensamentos, que bombardeavam brutalmente a sua cabecinha pequenina de criança. Caminhava em direcção contrária à dos soldados, e sem dar por isso, caminhava em direcção à Igreja feita de barro e de canas, como que enfeitiçado pela magia do espiritual negro que a assembleia aí entoava. Os espirituais negros são, na verdade, cânticos mágicos e só os negros os sabem cantar.
- Kwchira!... que me trazes? Pão?
O olhar de Kwchira chocou com a figura magra do Padre Francisco, com os seus olhos muito abertos, e não suportou.
- Meu filho... quem te deu esse pedaço de pão? Ah... Senhor... Senhor!!! Como és misericordioso... - soluçou o Padre Francisco, deixando-se emocionar pelo milagre. - Hoje vamos poder celebrar a Tua ressurreição... graças a Deus! - acrescentou, limpando as lágrimas com as mãos.
Olhou com ternura para Kwchira, que estava visivelmente assustado, pois nunca vira Padre Francisco em tal estado.
- Ah, Kwchira... não tinhamos pão para celebrar a Páscoa de Senhor... Isto faz-me lembrar Abraão... "O Senhor providenciará um cordeiro manso para o sacrifício..." - disse ainda cheio de emoção o Padre.
Kwchira não percebeu nada do que se passara, mas sentia uma grande paz invadir-lhe o coração. Era a paz de Deus, que mansamente acarinhava e sossegava o menino e lhe dava sabedoria para compreender que o "Pai Nosso" tinha dado pão...! É... o "Pai Nosso" tinha dado pão... e os filhos de Macuty poderiam também celebrar a Páscoa do Senhor.
O sol poente já declina no horizonte, e a bola alaranjada que lameja nas águas serenas do rio Limpopo anuncia a noite. E de longe, bem longe, se ouve o toque do batuque..., se ouve o toque do batuque..., o toque do batuque..., o batuque..., tuque... tuque...
...e no entanto, o confronto entre as ideologias
e a mensagem evangélica, continua... e conti-
nuará...: Este Kwchira e estes soldados não são
mais que protagonistas do nosso tempo, e na
luta entre David e o gigante Golias...
...Kwchira venceu!

sábado, 13 de março de 2010

Um conto Moçambicano...II

Próximo da palhota feita de canas e barro, um grupo de soldados conversava animadamente sobre os seus heroísmos e saudosismos dos tempos da guerra, quando Kwchira surgiu abruptamente, em desenfreada correria - as crianças andam sempre em correrias -, furando entre a multidão de pessoas que afogavam a rua.
Kwchira era um menino igual a muitos outros meninos da sua aldeia. Os seus dentes, muito brancos, sobressaíam no seu rosto preto de menino.
- Ei, miúdo... anda cá! - alguém chamou do grupo de soldados.
Kwchira estacou. Olhou, meio incrédulo, para o grupo de soldados que, orgulhosamente, exibia as suas metralhadoras.
- Buera Kuno! - insistia o soldado, reforçando o chamamento com um gesto da mão.
Kwchira aproximou-se, receoso. Não gostava de soldados! Tinha pavor às armas desde a noite em que uns homens trouxeram o seu pai aos ombros, com um grande buraco na garganta. Tinham sido os soldados, disseram-lhe. A partir daí, qualquer soldado era o assassino do seu pai!
- Tu vai na reza? - perguntou-lhe, seco, o soldado.
- Si... eu vai na reza! - respondeu-lhe, vacilante, o pequeno Kwchira.
- Que tu vai fazer na reza? Tu acredita no Deus? - replicou o soldado, que foi acompanhado por um coro de gargalhadas.
Os olhos de Kwchira tornaram-se maiores, enormes, e na sua pequena testa esboçou-se uma ruga. Não precisava pensar na resposta. Sabia-a de cor. Padre Francisco já o tinha ensinado.
- Si! Eu acredita... respondeu.
As gargalhadas atingiram um tom mais estridente. Apenas o soldado que tinha interpelado Kwchira permaneceu impassível. E olhando o pequeno com dureza, disse-lhe:
- Esse Deus não existe! Deus só há um... o Presidente Samora Machel! Esse é que é o teu Deus, esse é que lutou para a tua liberdade e para tu teres pão! - disse o soldado, ao mesmo tempo que apontava para o crachá que trazia pregado ao peito, com uma fotografia do Presidente de Moçambique.
Foi a vez do pequeno Kwchira sorrir, mostrando os dentes pequeninos, muito brancos, e, como um grande homem, testemunhou a grandeza dos seus talentos:
- Padre Francisco dizer a mim... Deus é bom!...
- Ah é? Teu Deus então é bom? Então pede pão ao teu Deus! - disparou-lhe o soldado, tentando deste modo destruír os andaimes da fé que já se espelhavam no rosto criança de Kwchira.
O coro de risos fez-se ouvir de novo, de forma hilariante, misturado com alguns "deixa lá o miúdo" dos mais complacentes.
Kwchira fulminou com o olhar o grupo de soldados... '''recordou-se do seu pai e daquela noite em que o viu entrar em casa com a garganta furada, e... recordou-se que nunca mais chamou pai a ninguém... só a Deus... porque o Padre Francisco lhe tinha ensinado que esse Deus era o Pai de todos e também o pai de Kwchita e'''... estremeceu.
"Pedir pão a Deus"... murmurou para consigo e... recordou-se das palavras do "Pai Nosso", a oração que já sabia de cor,... "O pão nosso de cada dia nos dai hoje...". (CONTINUA)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Um conto Moçambicano... I


"SE DEUS DESSE PÃO..."

"Recorda! A recordação está cheia de ensinamentos
úteis. Nos seus reconditos existe o necessário para
mitigar a sede da "élite" dos que venham a beber."
(Sidi Yaya)

Alguns dos personagens referidos neste conto, já a terra os tragou!
Este conto é uma homenagem a todos esses "imortais" que "sulcaram" vales profundos, na história de um país, que outrora sonhara a independência.
"Imortais" porque, na luta pela construção de um país novo, cada um fazendo-o à sua maneira, gravaram com o sangue, na memória das gentes, os seus "heróicos feitos". E hoje recordo-os porque, na verdade, a recordação traz sempre ensinamentos muito úteis...
...e no entanto, o confronto entre as ideologias (dos homens) e o evangelho (de Cristo), continua e... continuará...
...Óh...! Se Deus desse pão...
O sol abrasador esbatia-se, ardentemente, sobre o solo vermelho de Macuty, uma aldeia situada a 300 Km leste de Inhambane, próximo do grande rio Limpopo, que rasga a terra côr de sangue e vai matar a sede à deusa Bawa que, serena, aguarda a água, onde a terra acaba.
Macuty era uma aldeia escondida a meio do caminho do fim do mundo, uma ilha cor de sangue situada no coração da floresta Guiandwa (que quer dizer "filha da chuva"). Era um recanto onde as palhotas de cana e barro emergiam da terra como formigueiros gigantes, onde os homens e as mulheres eram de cor negra, onde as crianças ainda sabiam brincar sem bonecas nem armas, onde os velhos, porque eram sábios, sabiam os nomes e as histórias das estrelas, que vaidosamente brilhavam no céu, em noites de luar.
Apesar do calor que se fazia sentir, o povo da aldeia preparava com vivo entusiasmo a festa do 2º. aniversário da independência de Moçambique. Por toda a parte se embandeirava o símbolo único da liberdade, a bandeira das cinco cores. A farda verde da multidão de soldados negros, que circulavam pela aldeia, contrastava violentamente com a cor vermelha da terra. Em seus rostos estampava-se a alegria, a exuberância e o orgulho, que se misturavam com a sombra da desilusão, vincada pela ruga do desalento e da frustração em que tinham redundado os dois anos de liberdade, de esperança e de paz, outrora tão cantada e prometida.
Mas o dia é de festa e de alegria. É dia de renovação de promessas, é dia de acender de novo o fogo da esperança, já desvanecida, é dia de voltar a acreditar em quem promete, de dar um voto de confiança ao Presidente da Frelimo e acreditar que as condições de vida melhorarão, e que ninguém mais da aldeia de Macuty morrerá de fome.
Mas o dia é ainda de festa e de alegria porque é Domingo. É dia de acreditar também no Padre Francisco, que faz promessas em nome de um certo Deus, um Deus maior e mais poderoso que a deusa Bawa, um Deus que não se importa de ser pai de todos, também dos brancos.
Numa grande palhota feita de canas e barro, que ostentava uma Cruz de pau-preto no cimo da porta de entrada, o Padre Francisco falava da bondade e da misericórdia do Deus Pai, falava do amor, da justiça e da bondade do "Pai" em salvar todos os homens. Dos seus lábios as palavras saíam como a água cristalina da fonte viva, que jorra abundantemente, e mata a sede dos corações sequiosos, reacendendo neles a chama da esperança. Os que o escutavam bebiam cada palavra, cada sílaba, e neles o feitiço do espírito semeava a semente do grão de mostarda nos corações. E assim a tribo juntava-se às tribos de Israel, e tornavam-se filhos de Deus.(continua)

terça-feira, 9 de março de 2010

Terras do Niassa... e não só!

Com o correr dos tempos, vão-se diluíndo algumas imagens da que um dia se chamou Nova Freixo, a Cuamba pós independência, que ainda está bem vincada na memória de quem um dia por lá passou, cumprindo o dever patriótico de defender um rincão de uma terra que um dia foi Portugal em África.
Não era uma cidade cosmopolita, de grandes e largas avenidas a fervilhar de carros e pessoas na hora de ponta, mas sim uma tranquila cidadezinha de interior, situada naquelas terras vermelhas do Niassa que nos deixava a pele parecida com a dos "pele-vermelhas" americanos depois que se dava um passeio nos velhos Willis ou Land Roveres da "Tropa", já não falando dos tão conhecidos Unimog ou nas Berliett, que enchiam as poeirentas ruas de nuvens de um pó fininho que nos entrava nas gargantas e convidava a beber umas "basookas" nos bares do Sobral ou do Caldeira... se fossem estes que estivessem mais à mão, porque havia sempre a hipótese de ir ao Pontes ou ao Raimundo...
O que é verdade é haver em nós, que por lá andámos, um sentimento de nostalgia sempre que se fala de Moçambique, ou porque um qualquer governante resolveu ir "passear" até àquela terra do Índico, aproveitando o facto de ter a viagem e estadia por conta do Povo... como outrora acontecia aos "Maçaricos" que para lá iam calcorrear as matas, dar uns tiritos, comer umas mangas ou uns abacaxizinhos, beber umas Laurentinas e, nos momentos de ócio, passearem todo o "charme" nas sanzalas, feitos uns D. Juans de trazer por casa... porque isso era coisa também acontecia por lá, acredite-se ou não.
No Colégio de São Teotónio as jovenzinhas suspiravam quando viam passar os galantes e garbosos homens da Força Aérea... talvez com a secreta esperança de poderem um dia voar para a Metrópole nas asas de um pilotaço ou metidas na caixa de ferramentas de uma mecânico de avião... quem sabe?
A terra é realmente vermelha, mais parecendo ter sido salpicada com o sangue dos nossos rapazes, que se terão lembrado de fazer um jeitinho à Frelimo, dando o peito generoso às balas inimigas.
Muitos anos já são passados... mesmo que o Mitucué continue no mesmo sítio, tal como o Morro do Elefante! No entanto, a nossa saudade ainda anda por lá, ora junto à estação, assistindo ao rangue-rangue de uma chegada do "São combóio", participando numa noite de fados no "Solar do Açoreano" ou numa jogatana de futebol de salão no campo do Desportivo...
...e dizem que a saudade não mata, o que deve ser verdade, mas dói tanto...