sexta-feira, 12 de março de 2010

Um conto Moçambicano... I


"SE DEUS DESSE PÃO..."

"Recorda! A recordação está cheia de ensinamentos
úteis. Nos seus reconditos existe o necessário para
mitigar a sede da "élite" dos que venham a beber."
(Sidi Yaya)

Alguns dos personagens referidos neste conto, já a terra os tragou!
Este conto é uma homenagem a todos esses "imortais" que "sulcaram" vales profundos, na história de um país, que outrora sonhara a independência.
"Imortais" porque, na luta pela construção de um país novo, cada um fazendo-o à sua maneira, gravaram com o sangue, na memória das gentes, os seus "heróicos feitos". E hoje recordo-os porque, na verdade, a recordação traz sempre ensinamentos muito úteis...
...e no entanto, o confronto entre as ideologias (dos homens) e o evangelho (de Cristo), continua e... continuará...
...Óh...! Se Deus desse pão...
O sol abrasador esbatia-se, ardentemente, sobre o solo vermelho de Macuty, uma aldeia situada a 300 Km leste de Inhambane, próximo do grande rio Limpopo, que rasga a terra côr de sangue e vai matar a sede à deusa Bawa que, serena, aguarda a água, onde a terra acaba.
Macuty era uma aldeia escondida a meio do caminho do fim do mundo, uma ilha cor de sangue situada no coração da floresta Guiandwa (que quer dizer "filha da chuva"). Era um recanto onde as palhotas de cana e barro emergiam da terra como formigueiros gigantes, onde os homens e as mulheres eram de cor negra, onde as crianças ainda sabiam brincar sem bonecas nem armas, onde os velhos, porque eram sábios, sabiam os nomes e as histórias das estrelas, que vaidosamente brilhavam no céu, em noites de luar.
Apesar do calor que se fazia sentir, o povo da aldeia preparava com vivo entusiasmo a festa do 2º. aniversário da independência de Moçambique. Por toda a parte se embandeirava o símbolo único da liberdade, a bandeira das cinco cores. A farda verde da multidão de soldados negros, que circulavam pela aldeia, contrastava violentamente com a cor vermelha da terra. Em seus rostos estampava-se a alegria, a exuberância e o orgulho, que se misturavam com a sombra da desilusão, vincada pela ruga do desalento e da frustração em que tinham redundado os dois anos de liberdade, de esperança e de paz, outrora tão cantada e prometida.
Mas o dia é de festa e de alegria. É dia de renovação de promessas, é dia de acender de novo o fogo da esperança, já desvanecida, é dia de voltar a acreditar em quem promete, de dar um voto de confiança ao Presidente da Frelimo e acreditar que as condições de vida melhorarão, e que ninguém mais da aldeia de Macuty morrerá de fome.
Mas o dia é ainda de festa e de alegria porque é Domingo. É dia de acreditar também no Padre Francisco, que faz promessas em nome de um certo Deus, um Deus maior e mais poderoso que a deusa Bawa, um Deus que não se importa de ser pai de todos, também dos brancos.
Numa grande palhota feita de canas e barro, que ostentava uma Cruz de pau-preto no cimo da porta de entrada, o Padre Francisco falava da bondade e da misericórdia do Deus Pai, falava do amor, da justiça e da bondade do "Pai" em salvar todos os homens. Dos seus lábios as palavras saíam como a água cristalina da fonte viva, que jorra abundantemente, e mata a sede dos corações sequiosos, reacendendo neles a chama da esperança. Os que o escutavam bebiam cada palavra, cada sílaba, e neles o feitiço do espírito semeava a semente do grão de mostarda nos corações. E assim a tribo juntava-se às tribos de Israel, e tornavam-se filhos de Deus.(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário