quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Domoína

Eis o relato de uma tempestade tropical que atingiu a antiga Lourenço Marques em meados dos anos 80:
"- Estava-se na década de oitenta quando o Sul de Moçambique foi fustigado por uma violenta depressão tropical, que ficou conhecida por Domoína.

Penso que seriam umas seis horas da tarde quando tudo começou. Durante aproximadamente doze horas, uma chuva torrencial abateu-se sobre o Maputo, vindo empurrada por ventos ciclónicos que atingiram os 180 km /h.
Na manhã seguinte fui dar uma volta pela cidade, que se apresentava sob um céu cinzento leitoso. O mar mostrava uma calmaria assustadora, pois mais parecia uma folha de alumínio e as ruas e avenidas da cidade viam-se pejadas de árvores de grande porte que foram virtualmente arrancadas pela força do fenómeno.
Cerca do meio dia as notícias chegavam mais concretas. A destruição incidira naturalmente no "caniço", onde muita gente ficou sem casa e a cidade de cimento estava privada de água e luz. Muitos carros foram também empurrados contra as árvores e ninguém parecia conhecer a dimensão exacta da tragédia. Foi já pela tarde que me apercebi haverem alguns milhares de pessoas que haviam ficado virtualmente isoladas ao longo dos rios Maputo, Tembe e Umbelúzi, sendo preciso fazer-se alguma coisa para as ajudar. A rádio lançava apelos a todos os possuidores de embarcações de recreio para ajudarem na recolha das vítimas das enxurradas.
Fui então apresentar-me de imediato no Clube Naval e após uma breve organização sobre quem iria ir para onde, lá rumei à foz do rio Maputo, que ficava a cerca de dez milhas a leste da cidade.
Pouco depois de ter deixado o Clube, comecei a aperceber-me da verdadeira dimensão da tragédia. Viam-se dezenas de animais mortos serem arrastados pela corrente, muitos animais domésticos e selvagens e o drama atingiu o pico mais alto quando, entre os animais, começaram a aparecer também cadáveres humanos flutuando entre os tectos das palhotas, bem como árvores inteiras, carcaças de viaturas velhas e muitos animais domésticos.
Contactei o controle das operações no Clube Naval, através do rádio, sendo entãos informados (éram oito os barcos destinados ao rio Maputo) que deveríamos seguir pelo rio acima e que desprezássemos os cadáveres, pois havia notícia de muitas centenas de pessoas abrigadas nas copas das árvores e, portanto, não poderíamos nem deveríamos perder tempo a recolher os corpos.
Subimos o rio numa operação bastante difícil, pois era praticamente impossível distinguir o leito, tal a massa de água que corria em direcção ao mar. Era um espectáculo duma violência indescritível, com milhares de hectares sob uma massa imensa de água lamacenta, arrastando os despojos para o mar. Logo que chegados a Salamanga (uma povoação entre Maputo e a Ponta do Ouro, que distava cerca de 15 quilómetros do litoral), começámos a ver as primeiras vítimas vivas. Eram dezenas de mulheres e crianças que estavam empoleiradas nas copas de árvores, gritando umas, cantando outras, com algumas das árvores a ameaçar cair de um momento para o outro. Procedemos então ao salvamento em condições bastante complicadas. Não só a manobrabilidade das embarcações exigia perícia e cuidado, por força da corrente e dos destroços arrastados como, surpreendentemente, as pessoas NÃO queriam abandonar as árvores.
E foi assim que por cada pessoa que eu conseguia meter no meu barco era necessário para além de verdadeiros prodígios de pilotagem, um autêntico sermão de um marinheiro do Clube que me acompanhava, o Judas, para convencer as vítimas a saltarem para o barco. Foi uma cena dramática... ver mulheres e crianças a gritar, em pânico, encavalitadas no cucuruto de árvores que se iam tornando cada vez mais frágeis... e a recusarem lançar-se para os barcos.
Regressámos a Maputo já era de noite, tendo salvado umas dezenas de pessoas, no conjunto dos oito barcos. A viagem de regresso fez-se em silêncio profundo, que só era interrompido pelos contactos rádio que davam nota da posição dos barcos da expedição. Aos comandos do barco eu ia pensando naquela gente que eu conseguira salvar, com a ajuda do Judas, e nos muitos que não pudemos salvar com o cair da noite. Senti uma grande revolta por ter de morrer gente assim.
Uns dias depois e numa cerimónia simples no Clube Naval, o Director Nacional do Departamento das Calamidades Naturais fez um pequeno discurso de agradecimento ao grupo de pessoas que colaboraram com as suas embarcações no salvamento de algumas vidas e recebemos um prémio simbólico: - Um saco de amendoim, uma embalagem de cigarros Palmar, um queijo do Chokwé, cinco embalagens de bolachas da "Ceres", uma peça de artesanato e uma capulana. Prémio que de imediato foi oferecido à organização de auxílio às vítimas, tendo reservado para mim apenas a peça de artesanato e um diploma de mérito concedido pelo Governo da Republica, na altura Popular, de Moçambique.
Nesse mesmo dia rumei à Ilha da Inhaca com a família (filhotes muito pequeninos ainda e um ainda por vir...) para o conforto do Hotel, que tinha água e luz, enquanto Maputo permanecia às escuras e sem água. Na mesma altura em que muita gente continuava em locais mais remotos, de acesso impossível, provavelmente na copa de uma árvore... à espera de morrer.
Nessa noite dormi muito mal..."
Gostava de dar a conhecer a pessoa cujo texto transcrevo. No entanto, talvez motivada por uma sempre provável "crise" de modéstia, não me foi possível saber a identidade de alguém que mostra ser detentor de uma solidariedade e filantropia que me apraz registar. Em nome daqueles que salvou, obrigado a seja lá quem seja o autor e salvador desconhecido !
Já nos anos 70, quando estava na então Lourenço Marques, tive a oportunidade de assistir a uma calamidade que em nada foi parecida com esta, porque não teve as mortes dramáticas agora relatadas, mas teve inundações e alguns mortos, porque as águas ganhavam velocidade quando desciam em direcção à baixa, destruíndo então tudo aquilo que encontrassem na sua passagem.
Questões de saneamento básico... dizia-se...

Sem comentários:

Enviar um comentário