sábado, 8 de janeiro de 2011

MALANGATANA - MORTE DE UM ARTISTA ÚNICO

Fostes Poeta...Pintor...
artista enorme...multifacetado,
fizestes painéis com gritos de côr
com um amor jamais imaginado
para quem, como tu, viveu sofrendo
pela côr da pele... que sempre te orgulhou
ao pontos de pela vida ires dizendo
que Deus te dera a côr que mais gostou!
No céu, onde agora subistes,
há anjos que esperam ansiosos
para verem a obra que exibistes,
os painéis que na terra são famosos!
Repousa, Malangatana, bem o mereces,
e deixa o teu conforto para a saudade
enquanto as nossas bocas dirigem preces
por quem foi lição de vida e de verdade!
.
Victor Elias
Ainda vejo o Mestre a esboçar um dos seus trabalhos, um quadro que representava a sua visão do mundo de então, visto da sua Pátria que sempre amou! E ia conversando, enquanto dava expressão à sua visão tão peculiar do mundo que já o estava a conhecer pela obra produzida, que não pela participação cívica na luta do seu Povo contra a aberração que era o sistema colonial português.
Malangatana Valente Ngwenya, que havia nascido em Matalana, aprendeu as primeiras letras na Missão Protestante Suiça da sua terra Natal, até esta fechar, passando então para a Escola da Missão Católica, onde concluiu a 3ª. Classe no ano de 1948, ao mesmo tempo que ajudava a mãe no cultivo da machamba. Com 12 anos foi para a então Lourenço Marques em busca de trabalho, tendo sido pastor de gado, aprendiz de myamussoro - feiticeiro ou "médico tradicional" - mainato ou moleque (criado de crianças), até que conseguiu colocação no Clube de Ténis mais frequentado pela élite colonial laurentina, como apanha-bolas.
Foi com o trabalho neste Clube que resolveu voltar a estudar, passando a frequentar o ensino nocturno, na Escola Comercial e Industrial de Lourenço Marques, onde ganhou gosto pelas artes quando teve como mestre o arquitecto Garizo do Carmo. Um dos membros do Clube que o viu fazer esboços exigidos pelo curso, ofereceu-lhe diverso material de pintura e ajudou-o a vender os seus primeiros trabalhos.
Augusto Cabral foi assim o seu "Mecenas" das artes, tal como o arquitecto Miranda Guedes (Pancho), que em 1960 lhe emprestou as instalações que lhe serviram de atelier como pintor profissional e lhe passou a comprar dois quadros mensais, logo após haver ingressado no Núcleo de Arte, no ano de 1958, onde recebeu o apoio do pintor Zé Júlio,que lhe permitiu participar na sua primeira exposição colectiva.
A primeira exposição individual foi efectuada no Banco Nacional Ultramarino, no ano de 1961, tinha o Artista 25 anos.
Em 1963 viu publicados alguns dos seus poemas no jornal ORFEU NEGRO, sendo incluído na Antologia da Poesia Moderna Africana. Foi por esta altura que se viu indiciado como sendo membro da FRELIMO, juntamente com os poeta Craveirinha e Rui Nogar, sendo então preso na Cadeia da Machava até que foi julgado e absolvido a 23 de Março de 1966, sendo novamente detido em 04 de Janeiro de 1971, para esclarecer o simbolismo do seu quadro "25 de Setembro", que havia sido exposto no Núcleo de Arte a que pertencia. Esta situação havia colocado em risco a sua bolsa de estudos de gravura e cerâmica, que lhe havia sido concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian, mas tudo se resolveu.
Após a Independência de Moçambique, foi deputado em 1990, pela FRELIMO; em 1998 foi eleito para a Assembleia Municipal de Maputo, sendo reeleito em 2003. Participou em acções de alfabetização e na organização das aldeias comunais da província de Nampula. Foi um dos fundadores do Movimento Moçambicano para a Paz e pertenceu aos Artistas do Mundo contra o Apartheid.
Pode-se afirmar que Malangatana "retratou" a situação política do seu País, passando a sua obra a ser mais optimista após a Independência.
Faleceu no dia 05 de Janeiro de 2011, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, naquele Portugal distante que ele muito amava, pois afirmou sempre: "...que homem teria eu sido se não fossem os brancos, que até eram portugueses, a apostar em mim e permitirem que eu fosse uma pessoa feliz com os meus 'bonecos'? Nunca tive nos portugueses nenhum inimigo, mas sim no sistema político implantado em Moçambique!"

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