quarta-feira, 18 de maio de 2011

"DEU NOVOS MUNDOS AO MUNDO"



Quando alguém pretende falar de "relações raciais" em Moçambique, coloca-se, sem qualquer dúvida, num contexto regional, pois para todas as pessoas que habitam as regiões do centro e sul de Moçambique, onde as referências aos habitantes brancos que habitam do lado de lá da fronteira são uma constante, nomeando-se os Farmeiros brancos do Zimbábwe ou os Boers sul africanos, talvez hoje os mais presentes no quotidiano moçambicano, pois desde meados do século XIX se tornaram uma referência para os naturais de Moçambique.

A África do Sul será um pouco mais conhecida pelos "calcinhas" mineiros que iam de Moçambique fazer a extração do ouro e outros minérios nobres para as minas dos Afrikaans, a mando do Governo Colonial de então, que lhes controlava a deslocação, ao mesmo tempo que a Inglaterra lhes "comandava" o trabalho e a remuneração, pois não eram desgraçadinhos obrigados a trabalho escravo, sem remuneração, como poderia acontecer no lado português do território, no dizer dos "cocoanas" moçambicanos.

Esses "mais velhos" fazem frequentes referências aos "pidgis" usados nas minas ou nas "farmes" nas suas relações com os patrões brancos, o "chilapalapa" ou o "funacolo". São línguas completamente limitadas a um universo do trabalho que são pontuadas pelos imperativos que lembram a impossibilidade de haver relações afectivas entre os brancos e os negros. No entanto, Portugueses, Boers e Ingleses são referidos como constituíndo grupos que são são completamente diferentes entre si... e os três grupos remetem de imediato os sentidos para os tempos coloniais.

Quando vamos às regiões de Inhambane ou do Chimoio, onde encontramos muitos elementos da população, que estiveram nas farmes rodesianas ou nas minas sul-africanas, a afirmar que o retorno financeiro do seu trabalho foi proveitoso, pois os Boers e os rodesianos valorizavam o trabalho manual e pagavam por ele. Chegavam ao ponto de trabalhar ao lado dos trabalhadores africanos, nos momentos de maior necessidade nas fazendas, mesmo que o fizessem soltando terríveis gritos ... porque do lado português apenas havia os gritos e os trabalhos...que muitas vezes davam o ar de serem "forçados".

Em Moçambique a raça, nação, ocupação, status e poder estão intrínsecamente ligados. Falo de "raça", porque a herança biológicas lhe está indelévelmente ligada à expansão imperial europeia, mas a associação entre raça, autoctonia e nação ganharam, em Momçambique, uma dimensão muito particular... talvez pelo facto de ter sido a guerra que a veio articular .

Sobre os portugueses não haverá muito a dizer, porque a maioria abandonou Moçambique naqueles anos que antecederam a independência. Talvez tenha havido um pouco de precipitação no abandono... mas ficaram algumas interrogações que aguardam pertinentes respostas, de entre as quais ressaltam estas: - "Se Samora Machel estava tão interesado na continuidade dos Portugueses, até pela falta de quadros que era gritante, porque razão lançou campanhas de terror contra as populações brancas? Porque retirou os brancos dos postos de trabalho para os entregar aos Moçambicanos de côr? Porquê estar sempre a zurzir nos brancos, culpando-os até de o algodão ser branco, como chegou a dizer num comício na Machava." Samora ofereceu garantias aos indianos e isso levou-os a permanecer, porque ele sabia quão necessários seriam os indianos e muçulmanos para haver uma dinamização comercial num Moçambique que queria manter ligação entre o meio rural e o citadino. No entanto, criou as Lojas do Povo e centralizou a distribuição dos produtos de primeira necessidade... Foi um tempo em que os asiáticos eram suspeitos de falsear no que respeitava ao stock de produtos alimentares, visando a especulação, além de estarem indiciados da posse de divisas que eram subtraídas ao controle do Estado.

Toda a gente sabe que os chamados "monhés" foram sempre acusados de tudo aquilo que de mau ia acontecendo em Moçambique , pois se no tempo colonial pesava contra eles a desconfiança de serem tipos que enriqueciam à custa da feitiçaria, de actividades ilícitas com várias ordens de grandeza, dos tráficos de drogas e armas, da evasão de divisas... mas continuam, nos dias de hoje, a ser como corpos estranhos ao desenvolvimento do País e se antes eram "inimigos dos portugueses", hoje são inimigos da Nação Moçambicana, pessoas a quem os autóctones negros chamam de forasteiros. Mas os indianos e muçulmanos, que até são denunciados pela sua côr de pele, agarram-se às terras e teimam em ficar.

Samora não convidou os Portugueses a ficar... e ainda bem que o não fez, porque tornou possível alguma quietude, alguma paz naquela maravilhosa Nação à beira do Índico. Evitaram-se mais derramamentos de sangue inocente e Moçambique está a fazer o seu caminho tranquilamente.